A surfista adaptada Vitória Correa Diehl garantiu presença no Hawaii Adaptive Surfing Championships (HASC) após reverter, em menos de 48 horas, a negativa de embarque que quase a afastou do principal torneio mundial da modalidade, realizado de 5 a 8 de junho em Honolulu.
Trajetória esportiva e convivência com a paraparesia
Nascida no Rio Grande do Sul e residente em Florianópolis desde 2012, Vitória convive com paraparesia espástica, condição degenerativa que provoca perda progressiva de força e mobilidade nos membros inferiores. O diagnóstico não impediu a atleta de aderir ao surf em 2018, quando ingressou nas aulas gratuitas oferecidas pela Associação Surf Sem Fronteiras (ASSF) na praia da Barra da Lagoa.
Em 2022, a necessidade permanente de cadeira de rodas fez com que a esportista se afastasse da profissão de chef de cozinha. O contato diário com projetos de inclusão, entretanto, converteu-se em experiência de gestão esportiva e abriu portas para competições nacionais. A evolução culminou, em 2026, na seleção para uma das cinco bolsas internacionais concedidas pela organização sem fins lucrativos AccesSurf Hawaii, custeando passagem, inscrição e hospedagem para o HASC.
Impasse no embarque e requisitos regulatórios
A logística da viagem incluía trechos operados por United Airlines e Copa Airlines, partindo de Porto Alegre com conexão no Panamá. Mesmo após comunicar com antecedência a necessidade de cadeira de bordo, Vitória teve o embarque negado no check-in da Copa sob a alegação de ausência do formulário médico MEDIF.
A justificativa contraria a Resolução 208 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que só admite a exigência do MEDIF quando o passageiro: viaja em maca ou incubadora; necessita de oxigênio a bordo; ou apresenta condição clínica que represente risco aos demais. Sem enquadrar-se nesses itens, a atleta dependia apenas de assistência para deslocamento interno — serviço previsto na mesma norma e passível de solicitação até 72 horas antes da decolagem.
Após contato emergencial com a United Airlines, a companhia reacomodou a brasileira em voo operado pela Azul Linhas Aéreas, eliminando a conexão na América Central. A mudança assegurou a chegada a Honolulu no dia 4 de junho, menos de 24 horas antes da primeira bateria.
Desempenho inicial e estrutura do Hawaii Adaptive Surfing Championships
O HASC, criado em 2008 e sediado anualmente em Waikiki, adota formato de baterias sequenciais distribuídas em quatro dias. Na estreia, em 5 de junho, Vitória concluiu a primeira rodada na 3ª colocação da sua categoria, resultado que a manteve na chave principal. O evento reúne cerca de 120 atletas de 17 países, distribuídos em divisões baseadas no grau de funcionalidade motora.
Imagem: Vitória Diehl
A pontuação segue o sistema de notas de 0 a 10 por onda surfada, avaliando critérios de manobra, controle e progressão técnica. As duas melhores notas de cada competidor compõem o score final da bateria. A brasileira ainda disputa classificatórias adicionais até a sexta-feira, 8 de junho, data da grande final.
Impacto social e perspectivas para o esporte adaptado no Brasil
A visibilidade alcançada por Vitória reforça a importância de políticas de acessibilidade em eventos esportivos e no transporte aéreo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimam que cerca de 7,5% da população brasileira possui algum tipo de deficiência motora, público com acesso limitado a práticas aquáticas de alto rendimento.
Projetos como a Surf Sem Fronteiras e as bolsas da AccesSurf indicam um caminho para a inclusão, mas dependem de financiamento estável e padronização logística para atletas que necessitam de cadeira de rodas, pranchas customizadas e equipe de apoio. O caso vivido pela surfista gaúcha expõe um gargalo regulatório que persiste, mesmo com a legislação brasileira alinhada às convenções internacionais de direitos da pessoa com deficiência.
Conclusão Técnica
Vitória Correa Diehl iniciou o Hawaii Adaptive Surfing Championships 2026 com resultado promissor, comprovando capacidade competitiva apesar do atraso na viagem. A regularização de procedimentos entre companhias aéreas e a efetivação das diretrizes da Anac permanecem como pontos críticos a serem endereçados no retorno da atleta ao país. No curto prazo, o foco recai sobre as baterias decisivas até 8 de junho, que definirão os rankings internacionais da temporada e poderão consolidar o Brasil em posição de destaque no surf adaptado global.



