Em discurso na sexta-feira (15), o senador Flávio Bolsonaro (PL) defendeu a busca de financiamento privado para o longa-metragem “Dark Horse”, que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e comparou a operação ao apoio público de R$ 1 milhão concedido pela Embratur ao samba-enredo da Acadêmicos de Niterói que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Carnaval de 2024.
Origem da controvérsia: pedido de investimento ao dono do Banco Master
O episódio ganhou repercussão após o Intercept Brasil divulgar, em 13 de março, um áudio no qual Flávio Bolsonaro solicita recursos a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para viabilizar o filme Dark Horse. Conforme o próprio senador confirmou à CNN Brasil, o fundo administrado por Vorcaro destinou US$ 12 milhões — aproximadamente R$ 60 milhões — à produção.
Daniel Vorcaro figura como alvo de inquérito da Polícia Federal que apura suposto esquema de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. Apesar da investigação, o parlamentar classificou a negociação como “regular captação de investimento privado”, sustentando que não há impedimento legal para buscar patrocinadores no mercado.
O longa, ainda em fase de pré-produção, pretende retratar os principais marcos políticos de Jair Bolsonaro, incluindo a eleição de 2018, a gestão da pandemia de covid-19 e a campanha de 2022.
Discurso de defesa: crítica à utilização de verba pública no Carnaval
Durante o lançamento da pré-candidatura do deputado Guilherme Derrite (PP) ao Senado em Sorocaba (SP), Flávio declarou: “A gente não tem Lei Rouanet. Eu não posso bater na porta da Embratur ou da prefeitura de Niterói pedindo dinheiro público para fazer desfile de escola de samba”. A frase aludia diretamente ao desfile da Acadêmicos de Niterói, que conduziu enredo inspirado na história de Lula sob a ótica de sua mãe, Dona Lindu.
Segundo dados divulgados em fevereiro, a escola recebeu R$ 1 milhão da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) — montante igualmente liberado a outras agremiações do Grupo Especial. Não houve aporte via Lei Rouanet, algo confirmado pela própria escola e pela reportagem do portal Metrópoles.
A apresentação carioca gerou debate ao exibir a ala “Família em Conserva”, que satirizou o conceito de “família tradicional brasileira”. O episódio foi mencionado por Flávio como exemplo de “propaganda política financiada com recursos públicos”.
Dinâmica do financiamento cultural no Brasil
O contraste traçado pelo senador evidencia duas modalidades de fomento cultural vigentes no país:
Imagem: Instagram
- Lei Rouanet — mecanismo de incentivo fiscal que permite a empresas e pessoas físicas direcionar parte do Imposto de Renda a projetos artísticos aprovados pelo Ministério da Cultura.
- Patrocínio direto de estatais e autarquias — no caso do Carnaval de 2024, a Embratur repassou verbas próprias às escolas de samba com objetivo de promover o turismo internacional.
Produções audiovisuais, como Dark Horse, podem recorrer a ambas as alternativas, além de fundos privados. Contudo, ao optar por investidores de mercado, o projeto assume integralmente o risco financeiro — cenário enfatizado por Flávio para rebater acusações de irregularidade.
Repercussões políticas e possíveis desdobramentos jurídicos
A revelação do áudio repercutiu no Congresso Nacional. Parlamentares da oposição apontaram possível conflito de interesses, pois Daniel Vorcaro negocia soluções judiciais para processos em que responde. Já aliados do PL argumentam que não há vedação legal a aportes privados em obras cinematográficas.
Na esfera criminal, a Polícia Federal concentra-se na investigação do Banco Master. Até o momento, não há inquérito formal contra Flávio Bolsonaro relacionado ao financiamento do filme. Especialistas em direito penal observam que eventual imputação dependeria de prova de contrapartida política, hipótese ainda inexistente nos autos.
Em paralelo, órgãos de controle — entre eles o Tribunal de Contas da União — monitoram a aplicação de verbas federais no Carnaval. Caso sejam identificadas irregularidades na destinação dos R$ 1 milhão repassados à Acadêmicos de Niterói, a agremiação poderá responder a processo de tomada de contas especial.
Conclusão técnica
O debate sobre Dark Horse e o samba-enredo da Acadêmicos de Niterói ilustra a tensão recorrente entre financiamento privado e patrocínio estatal na cultura brasileira. No curto prazo, a produção do filme deve prosseguir com recursos do fundo vinculado a Daniel Vorcaro, enquanto a Polícia Federal avança nas apurações sobre o Banco Master. No campo político, a fala de Flávio tende a ampliar o embate narrativo entre PL e PT às vésperas das eleições municipais de 2024, pressionando órgãos de fiscalização a dar celeridade tanto aos processos sobre lavagem de dinheiro quanto à verificação dos repasses ao Carnaval.



