Produção de maracujá impulsiona economia de Santa Catarina e consolida novo polo frutícola

Santa Catarina intensificou a produção de maracujá nos últimos cinco anos, transformando a fruta em vetor de renda para pequenos e médios produtores, segundo dados consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2023. O cultivo, tema do programa “Agro, Saúde e Cooperação” exibido neste domingo (17) pela NDTV, movimenta cadeias logísticas regionais, gera postos de trabalho em comunidades rurais e eleva a competitividade do agronegócio catarinense nos mercados interno e externo.

Crescimento da cultura e distribuição geográfica

O avanço do maracujá em solo catarinense começou a ganhar tração a partir de 2018, quando estudos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) confirmaram a adaptação da Passiflora edulis às condições microclimáticas do Sul do estado. Municípios como Meleiro, Turvo e Araranguá concentram hoje cerca de 60 % das áreas plantadas, totalizando aproximadamente 1,9 mil hectares. A produtividade média estadual atingiu 22 toneladas por hectare em 2023, índice que supera em 15 % a média nacional e posiciona Santa Catarina entre os cinco principais polos brasileiros da fruta.

A ampliação da cultura também se estende ao Vale do Itajaí e ao Litoral Norte, onde solos arenosos associados à disponibilidade hídrica favorecem ciclos mais curtos. Esse mosaico de regiões produtoras garante colheitas escalonadas de setembro a maio, permitindo oferta contínua às agroindústrias de polpas localizadas em Blumenau e Itajaí.

Impacto econômico e geração de renda

Em 2023, o valor bruto da produção (VBP) do maracujá catarinense alcançou R$ 182 milhões, representando alta de 27 % em relação ao exercício anterior, de acordo com o Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa). O segmento emprega diretamente 8,4 mil trabalhadores durante os picos de safra e movimenta uma cadeia secundária de embalagens, transporte refrigerado e insumos agrícolas estimada em R$ 55 milhões por ano.

Cooperativas como a Cooperja, sediada em Jacinto Machado, têm papel decisivo nesse desempenho. A entidade reúne 420 famílias agricultoras, concentra compras de fertilizantes, negocia contratos de fornecimento com redes varejistas e assegura remuneração mínima de R$ 2,60 por quilo ao produtor, mesmo em momentos de pressão de oferta. Esse modelo cooperativo inspira novos grupos nas regiões de Chapecó e Rio do Sul, onde o maracujá começa a substituir culturas menos rentáveis, como o fumo.

Inovações tecnológicas e manejo sustentável

A adoção de mudas enxertadas resistentes à mosca-das-frutas e ao vírus do endurecimento dos frutos reduziu em 40 % a necessidade de aplicação de defensivos nos últimos três ciclos, apontam relatórios da Embrapa Mandioca e Fruticultura. Sistemas de irrigação por gotejamento, acompanhados de sensores de umidade, permitiram economia hídrica estimada em 18 milhões de litros por safra somente no Sul catarinense.

O uso de bioinsumos também se consolida: mais de 70 propriedades testam formulações à base de Bacillus subtilis para controle de patógenos, iniciativa que conta com fomento de R$ 3,8 milhões do Programa de Pesquisa Agropecuária Catarinense (Propagri). Tais práticas atendem à demanda crescente por frutas com certificação sustentável, segmento que remunerou até 15 % acima da média convencional nos mercados premium de São Paulo e Paraná em 2024.

Logística, industrialização e novos mercados

A proximidade dos produtores com o porto de Itajaí facilita a exportação de concentrado de maracujá para a Europa e para os Estados Unidos. Em 2023, o volume embarcado somou 2,1 mil toneladas, gerando receita cambial de US$ 6,7 milhões. O Estado negocia atualmente a abertura sanitária para envio de fruta fresca ao Chile e à Argentina, mercados que podem absorver mais 1,5 mil toneladas anuais.

No âmbito doméstico, indústrias catarinenses de bebidas mistas registraram alta de 12 % no consumo de suco concentrado em 2023. O maracujá se tornou ingrediente-chave em energéticos e chás gelados lançados durante a Feira Internacional da Indústria de Alimentos (Fispal), reforçando a integração entre campo e indústria.

Desafios e perspectivas futuras

Embora a safra 2024/25 aponte para incremento de 8 % na área plantada, a cadeia enfrenta desafios logísticos, sobretudo em estradas vicinais utilizadas para escoar a produção. Estudos do Departamento Estadual de Infraestrutura (Deinfra) indicam necessidade de investimento de R$ 27 milhões para readequar 182 quilômetros críticos na microrregião do Extremo Sul.

Outro ponto de atenção é a capacitação de mão de obra. Relatório do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC) aponta déficit de 1,2 mil trabalhadores especializados em poda e condução de pomares. Programas de formação continuada, em parceria com institutos federais, pretendem reduzir essa lacuna em até 60 % até 2026.

Conclusão Técnica

A consolidação do maracujá como cultura estratégica em Santa Catarina demonstra forte sinergia entre pesquisa, assistência técnica e organização de produtores. O crescimento sustentado, alicerçado em ganhos de produtividade e na diversificação de mercados, indica expansão da renda agrícola e fortalecimento das economias regionais. Para o próximo biênio, a expectativa oficial é elevar o VBP a R$ 230 milhões, com incremento de áreas irrigadas, abertura de novos corredores logísticos e ampliação do acesso a cultivares resistentes. O cenário projeta continuidade na geração de empregos rurais e no suprimento da cadeia industrial, consolidando o Estado como referência nacional em maracujá.