A inflação oficial do país ultrapassou o centro da meta e tende a ganhar força nos próximos trimestres, impulsionada pela escalada do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio, segundo cálculos do Itaú BBA.
Repasse do petróleo: impacto imediato e difuso nos preços
O banco de investimento observa que a recente elevação da cotação do barril — acima de US$ 85 no cenário-base — já se reflete nos Índices Gerais de Preços (IGPs), tradicional termômetro dos custos industriais e atacadistas. A partir desses indicadores, economistas identificam dois vetores de pressão:
1. Canal direto: reajustes quase instantâneos em gasolina, diesel e gás de cozinha elevam o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) sem defasagem relevante.
2. Canal indireto: alta nos derivados de petróleo inflaciona fretes, logística, embalagens, energia e insumos industriais, contaminando uma gama maior de bens e serviços.
De acordo com o estudo, um choque de 10 % na cotação internacional tende a acrescentar aproximadamente 40 pontos-base aos preços livres da economia, repercutindo em cerca de 30 pontos-base no IPCA cheio ao longo de quatro trimestres.
Modelagem econométrica e sensibilidade do IPCA
No primeiro exercício estatístico, o Itaú BBA replicou metodologia similar à empregada pelo Banco Central para quantificar choques de oferta. O resultado indica que períodos de demanda aquecida potencializam a transferência de custos, enquanto hiatos negativos atenuam o efeito. “Choques altistas geram repasse mais elevado”, resume o relatório.
Um segundo modelo, construído a partir das matrizes insumo-produto da economia brasileira, revelou impacto potencial ainda maior. Ao considerar a participação do diesel em quase um terço das cadeias produtivas, o banco projetou acréscimo de até 70 pontos-base nos preços livres apenas via canal indireto, caso a variação de 10 % nos preços do petróleo seja totalmente repassada.
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No limite, o efeito combinado direto e indireto poderia alcançar entre 75 e 125 pontos-base sobre o IPCA, cenário que representantes da instituição classificam como “máximo” por pressupor repasse integral.
Meta superada, riscos para a política monetária e projeções para 2026
Com a inflação corrente já acima do objetivo de 3,0 %, o Itaú BBA revisou a estimativa para o IPCA de 2026 a 5,2 %. A atualização incorpora acréscimo de 1,1 ponto percentual em relação à projeção anterior ao agravamento do conflito no Oriente Médio. Metade desse ajuste decorre de combustíveis; o restante, de pressões difusas sobre manufaturados e serviços.
Em paralelo, a curva de juros precifica menor probabilidade de cortes adicionais da taxa Selic. Segundo o relatório, o Banco Central deve adotar postura mais cautelosa diante de um “balanço de riscos desfavorável” para a convergência da inflação. A análise argumenta que, quanto mais disseminado o choque de custos, maior a inércia inflacionária e, consequentemente, o custo de desinflação.
Dados complementares reforçam a preocupação: o componente de preços livres do último IPCA anotou avanço anualizado superior a 6 %, enquanto núcleos de inflação — métricas que expurgam itens voláteis — ultrapassam 5,5 %. Esses números sinalizam perda de fôlego da desinflação iniciada em 2025.
Conclusão Técnica
O conflito geopolítico elevou o preço do petróleo, intensificando pressões diretas e indiretas sobre a cesta de consumo brasileira. Modelos do Itaú BBA sugerem que um acréscimo de 10 % na commodity pode adicionar até 1,25 ponto percentual ao IPCA, cenário incompatível com a meta vigente. A combinação de índices gerais de preços escalando, núcleos persistentes e expectativas desancoradas indica contexto mais árduo para a autoridade monetária. Caso o petróleo permaneça nos níveis atuais ou avance, novos cortes na Selic tendem a ser postergados, e o debate sobre políticas fiscais e parafiscais ganhará relevância para conter a propagação inflacionária nos próximos trimestres.



