Projeções atualizadas do Boletim Focus indicam IPCA superior a 5% em 2026, ultrapassando o teto da meta e reforçando o cenário de juros elevados, menor expansão do PIB e risco de perda de poder de compra para as famílias brasileiras.
Projeções do IPCA superam o teto da meta de inflação
O levantamento semanal realizado pelo Banco Central junto a mais de cem instituições financeiras elevou, pela terceira semana consecutiva, a estimativa do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o horizonte de 2026. A mediana das expectativas passou de 4,93% para 5,02%, rompendo o limite de 4,50% definido pelo Conselho Monetário Nacional para o período.
Desde 2017, o regime de metas não registrava desvio tão expressivo em projeções de longo prazo. A mudança sinaliza deterioração das expectativas e amplia a probabilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) estender a estratégia de aperto monetário ou realizar cortes de juros mais graduais.
Fatores externos e internos impulsionam a alta de preços
A pesquisa identificou combinação de choques que pressionam a inflação:
Guerra no Oriente Médio: a escalada do conflito afeta a oferta global de petróleo, fertilizantes e derivados, elevando custos de transporte e insumos agrícolas.
Commodities agrícolas: efeitos climáticos sobre safras de grãos e proteínas mantêm preços de alimentos em patamar elevado. O subgrupo alimentação no domicílio acumulou alta de 4,62% no ano até abril, segundo o IBGE.
Câmbio: a cotação do dólar oscilou próximo de R$ 5,20 nas últimas semanas, aumentando o preço interno de itens importados ou dolarizados, como combustíveis.
Inércia inflacionária: reajustes contratuais indexados ao IPCA de 2023 contribuem para a persistência dos núcleos de inflação acima de 4%.
Efeito sobre atividade econômica e condições financeiras
Ao mesmo tempo em que projeta inflação maior, o Focus reduziu a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,95% para 1,89% em 2024. Essa combinação de menor dinamismo com preços elevados sugere cenário de estagflação moderada.
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No campo monetário, a taxa básica de juros (Selic) encerrou a última reunião do Copom em 10,50% ao ano. Com o IPCA acima da meta, economistas passaram a projetar cortes residuais de 0,25 ponto percentual por encontro ou até mesmo a manutenção dos juros no patamar atual por período prolongado.
Para empresas, o crédito corporativo em títulos de dívida indexados ao CDI já refletiu alta de 35 pontos-base no custo médio desde março. Nas famílias, a taxa média do crédito rotativo do cartão permanece acima de 400% ao ano, inibindo o consumo de bens duráveis.
Perspectivas para política fiscal e expectativas de mercado
Analistas monitoram a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2025 e possíveis ajustes no arcabouço fiscal para conter dúvidas sobre a trajetória da dívida pública, atualmente projetada em 77,7% do PIB para dezembro. O cumprimento da meta de déficit zero no próximo ano é considerado fator essencial para ancorar expectativas e reduzir prêmios de risco.
Medidas voltadas ao aumento da produtividade—como reformas tributária infraconstitucional, modernização regulatória e concessões em infraestrutura—são apontadas por casas de análise como caminhos para amenizar a pressão de custos estruturais e favorecer a oferta agregada.
O comportamento das commodities energéticas continuará no centro das atenções. Cada variação de US$ 10 no barril de Brent adiciona, em média, 0,20 ponto percentual ao IPCA anual, segundo estimativas do Ipea. Já a normalização das cadeias logísticas globais poderia aliviar parcialmente a inflação de bens industriais, que acumulou 3,1% em doze meses.
Conclusão técnica
Com IPCA projetado acima de 5% e expansão do PIB inferior a 2%, o quadro traçado pelo Boletim Focus indica prolongamento do ciclo de aperto monetário e manutenção de condições financeiras restritivas. Enquanto pressões externas elevarem preços de combustíveis e alimentos, e o quadro fiscal seguir indefinido, a autoridade monetária deverá adotar postura cautelosa, limitando cortes substanciais na Selic. Monitoramento contínuo de choques de oferta, evolução do mercado de trabalho e sinalização do governo sobre disciplina orçamentária serão determinantes para reancorar expectativas e restabelecer convergência da inflação à meta no médio prazo.



