Alta de juros na Europa encurta espaço para corte da Selic, apontam dados de mercado

O Banco Central Europeu elevou a taxa de referência para 2,25 % nesta quinta-feira (11), fato que reforçou a probabilidade de o Comitê de Política Monetária manter a Selic em 14,5 % na reunião da próxima quarta-feira (17), conforme indicam contratos negociados na B3.

Reação em cadeia: como a decisão europeia chega ao Brasil

A alta promovida pelo Banco Central Europeu (BCE) encerra quase três anos de estabilidade monetária na zona do euro. O movimento, classificado por analistas como “aumento preventivo”, foi motivado pelo repique inflacionário decorrente da guerra no Irã, que elevou o custo de energia e do petróleo. Na região, a inflação já supera 3 %, acima da meta oficial de 2 %.
O ajuste europeu reverbera em economias emergentes devido à realocação de capitais globais. Taxas mais altas em países centrais tendem a elevar o prêmio exigido por investidores em mercados periféricos. Esse efeito cambial se soma à inflação importada, encarecendo produtos que o Brasil adquire no exterior e pressionando o índice de preços doméstico.

Além do BCE, o mercado monitora a mesma dinâmica nos Estados Unidos. Embora o Federal Reserve deva manter os Fed Funds inalterados na chamada “Super-Quarta”, cresce a expectativa de aperto adicional após as eleições de meio de mandato, caso a inflação norte-americana não recue. A combinação de juros mais altos nas duas maiores economias do mundo reduz o grau de liberdade do Banco Central do Brasil para retomar cortes.

Inflação doméstica reforça cautela do Copom

No cenário interno, os últimos indicadores corroboram a tese de manutenção. A prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) avançou para 4,64 % em maio, e o Relatório Focus aponta projeção de 5,11 % para o fim do ano, marcando 13 semanas consecutivas de revisão para cima. A meta oficial é de 3 %.
Pressões adicionais surgem do câmbio: o dólar voltou a ganhar força frente ao real, influenciado pela incerteza geopolítica e pela expectativa de juros mais elevados em economias desenvolvidas. A desvalorização cambial encarece bens comercializados em moeda estrangeira, como combustíveis, fertilizantes e componentes eletrônicos, contaminando a cadeia produtiva local.

O conflito no Oriente Médio mantém o barril de petróleo próximo a US$ 95, impactando diretamente os preços de gasolina, diesel e custos logísticos. Essa combinação desafia o Copom, que, até poucas semanas atrás, era majoritariamente esperado para cortar a Selic em 0,25 ponto percentual. A deterioração dos fundamentos, porém, inverteu o consenso.

Indicadores de mercado já precificam Selic estável até agosto

Os contratos de opção do Copom listados na B3 refletem a mudança de sentimento. Em 3 de junho, a probabilidade implícita de corte predominava; dois dias depois, a aposta em manutenção atingiu 70 %, e no dia 9 alcançou 79 % para a reunião subsequente, em agosto.
A curva de juros futuros transmite o mesmo sinal. O Tesouro Prefixado 2029, sensível às expectativas sobre o custo do dinheiro, oferece rendimento de 14,8 % ao ano, contra 12,8 % em fevereiro, quando o mercado projetava redução acumulada de três pontos percentuais na Selic ao longo de 2026.

O Brasil, diferentemente da zona do euro, concluiu ciclo de aperto monetário em 2025, levando a taxa básica de 2 % para 15 %. Mesmo após um corte pontual de 0,5 ponto em março deste ano, o patamar continua entre os mais elevados do mundo, fato que já restringe o crédito e arrefece a atividade econômica.

Conclusão técnica

Diante do reposicionamento de política monetária em economias avançadas, da pressão inflacionária persistente e da recalibração das apostas nos mercados futuros, o Copom tende a adotar postura conservadora na reunião de 17 de junho. A sinalização predominante indica manutenção da Selic em 14,5 %, com perspectiva de estabilidade também em agosto, a menos que choques externos se dissipem e os índices de preços mostrem inflexão consistente nos próximos meses.