Dona Rita Fernandes da Silva, hoje com 98 anos, dedicou mais de 30 anos à docência em Chapecó, influenciando sucessivas gerações de alunos e consolidando uma trajetória que abrange família numerosa, serviço comunitário e enfrentamento de adversidades.
Início da carreira docente e contexto histórico
Nascida em 12 de março de 1928, na localidade rural de Passo Borma — então denominada Passo dos Carneiros —, Dona Rita ingressou na vida profissional em meio a um período marcado pela expansão das escolas multisseriadas no interior catarinense. Sem formação acadêmica formal, mas respaldada pela prática, ela iniciou as atividades pedagógicas quando Chapecó ainda estruturava sua rede pública de ensino primário. Na época, o acesso a materiais era limitado; por isso, a professora mobilizava famílias para confeccionar uniformes e cadernos, garantindo frequência escolar de crianças de baixa renda.
O deslocamento diário ilustra o cenário rural de meados do século XX: eram percorridos 11 quilômetros a pé até a escola, numa região com infraestrutura viária incipiente. Esse percurso reforça a dedicação da docente, que conciliava jornada de trabalho com a administração de 13 filhos em casa.
Impacto pedagógico e reconhecimento comunitário
A atuação continuada por três décadas projetou Dona Rita como referência entre colegas formados em cursos normalistas. Segundo depoimentos, o atributo que diferenciava seu método era a prática de ensino adaptativo, calibrada às necessidades de turmas heterogêneas. O respeito conquistado rendeu convites para liderar projetos de alfabetização em bairros recém-urbanizados de Chapecó, ampliando a taxa de conclusão do ensino fundamental local.
Durante o exercício profissional, a professora promovia campanhas de doação de livros e mantimentos, integrando poder público municipal e associações de moradores. Essa mobilização resultou na criação de grupos de mães costureiras, responsáveis por produzir fardamentos padronizados ao longo dos anos 1960 e 1970.
No plano institucional, relatórios escolares registram turmas com redução expressiva de evasão — de 18 % para 4 % em determinado biênio — após a implementação de atividades curriculares complementares idealizadas pela educadora.
Desafios pessoais: incêndio e reconstrução familiar
Em meados da década de 1980, um incêndio destruiu integralmente a residência da família. A perda de bens motivou a mudança para o bairro Presidente Médici, zona urbana em expansão na época. A reconstrução foi viabilizada por campanhas comunitárias e marcou nova fase de engajamento social da professora.
Imagem: Pessoal
Nesse mesmo período, Dona Rita encerrou a carreira formal em sala de aula (aposentadoria em 1980), mas manteve vínculo educativo atuando por 28 anos como ministra da Igreja Nossa Senhora da Saúde, na comunidade Vista Alegre. A função incluía organização de cursos de catequese e alfabetização de adultos, ampliando o escopo de seu trabalho para além do ambiente escolar.
Legado familiar e influência intergeracional
Os números refletem o alcance de sua rede familiar: 13 filhos, 39 netos, 60 bisnetos e 17 tataranetos. Entre os descendentes, pelo menos nove atuam em setores ligados à educação ou assistência social, indicando continuidade do modelo de serviço comunitário. Testemunhos coletados nas comemorações do 98.º aniversário citam a postura conciliadora da matriarca como fator determinante para a formação de valores de cooperação.
Estudos sobre memória coletiva apontam que a preservação de relatos de docentes veteranos contribui para o fortalecimento da identidade cultural municipal. Nesse sentido, a trajetória de Dona Rita serve de fonte oral para pesquisadores de história regional, que mapeiam a evolução da educação no Oeste catarinense a partir de casos emblemáticos.
Conclusão técnica
Aos 98 anos, Dona Rita Fernandes da Silva representa um ciclo histórico que vai da escola rural improvisada às iniciativas de alfabetização comunitária urbanas. Seu percurso combina dados quantitativos — três décadas de docência, dezenas de descendentes e centenas de alunos — com indicadores qualitativos de redução de evasão e engajamento social. Para 2024, familiares articulam a digitalização de arquivos fotográficos e depoimentos com o objetivo de incluir o material no centro de memória municipal, ação que poderá ampliar o acesso de pesquisadores à documentação e inspirar novas políticas de valorização de educadores pioneiros.



