BRICS Pay avança para integrar pagamentos e reduzir custos cambiais entre economias emergentes

O sistema BRICS Pay entrou na fase de testes ampliados em 2026 com o propósito de permitir transferências diretas em moedas locais entre Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul, encurtando prazos, eliminando múltiplas conversões cambiais e dispensando o uso do dólar como moeda-ponte.

Origem estratégica e metas do projeto

Concebido durante as reuniões ministeriais de 2019 e oficializado na Cúpula de Joanesburgo em 2023, o BRICS Pay foi desenhado para reforçar a cooperação econômica de um bloco que, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), já responde por cerca de 40 % do PIB global medido em paridade de poder de compra. A proposta central é criar um mecanismo de liquidação que:

  • viabilize pagamentos business-to-business, governamentais e de varejo em tempo quase real;
  • reduza tarifas bancárias intercontinentais hoje estimadas entre 2 % e 5 % do valor transacionado;
  • estimule o uso do real (BRL), yuan (CNY), rupia (INR), rublo (RUB) e rand (ZAR) nas trocas comerciais intrabloco.

Autoridades financeiras dos cinco países avaliam que a economia decorrente da eliminação de atravessadores cambiais pode chegar a US$ 4,5 bilhões anuais quando o sistema atingir escala plena.

Arquitetura tecnológica e relação com o Pix

A estrutura adota tecnologia blockchain permissionada, hospedada em nós operados pelos bancos centrais participantes. Cada transação recebe códigos QR padronizados, ecoando a lógica de usabilidade do Pix, mas com amplitude multimoeda. As principais diferenças estão listadas a seguir:

Característica Pix BRICS Pay
Escopo geográfico Brasil Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul
Moeda de liquidação Real Multimoeda
Tempo médio de compensação < 2 segundos ≤ 15 segundos (fase-piloto)
Infraestrutura Sistema de Pagamentos Instantâneos – BC Rede blockchain permissionada BRICS

O desenvolvimento está dividido em três lotes técnicos: integração bancária nacional, homologação de gateways cambiais e, por fim, interconexão com carteiras digitais privadas. A expectativa divulgada pela presidência rotativa brasileira prevê a conclusão do lote dois até dezembro de 2027.

Potencial econômico para empresas e consumidores

Do ponto de vista corporativo, o BRICS Pay pode reduzir prazos logísticos financeiros de + T + 2 para T + 0, impactando cadeias de suprimento de setores como agricultura, energia e manufatura tecnológica. Para importadores brasileiros, a diminuição de cada 1 ponto percentual em custos cambiais representa, segundo a Confederação Nacional da Indústria, economia anual de R$ 1,7 bilhão.

Consumidores também podem se beneficiar de remessas estudantis ou familiares mais baratas. Em testes conduzidos por um consórcio de fintechs indianas, a taxa média de envio caiu de US$ 6,80 para US$ 1,25 em transferências de US$ 250.

Desafios regulatórios e cenário geopolítico

A consolidação do sistema exige convergência normativa entre as cinco jurisdições. Entre os obstáculos listados por analistas do Banco de Compensações Internacionais (BIS) estão:

  • diferenças nos regimes de Know Your Customer (KYC) e combate à lavagem de dinheiro;
  • necessidade de prover liquidez intradiária em moedas menos conversíveis;
  • sincronização de padrões contábeis para relatórios transfronteiriços.

Adicionalmente, a volatilidade do rublo e discussões sobre sanções internacionais impõem risco reputacional que pode limitar a adoção inicial fora do bloco.

Conclusão técnica

O BRICS Pay avança como iniciativa de integração financeira que combina infraestrutura blockchain, liquidação multimoeda e inspiração em modelos instantâneos já consolidados. Sustentado por um bloco responsável por 40 % da economia global em PPC e com previsão de chegar a 41 % em 2025, o projeto tem capacidade de diminuir custos operacionais, acelerar fluxos de caixa e fomentar o uso de moedas locais nas transações intrabloco. Entretanto, a plena implantação depende da harmonização regulatória, da robustez tecnológica e da confiança dos mercados. A próxima Cúpula do BRICS, agendada para setembro de 2026 em Nova Deli, deve definir cronogramas finais de interoperabilidade e critérios de adesão de instituições privadas ao ecossistema.