Alerta do Bank of America redefine estratégia em ações “bond proxies” diante de Selic mais alta

O Bank of America elevou a projeção para a Selic ao fim de 2026 de 13,25 % para 14,25 % e, com isso, passou a privilegiar ações de empresas menos alavancadas dentro do grupo conhecido como bond proxies, usado por investidores que buscam previsibilidade de caixa e blindagem de dividendos.

Contexto macroeconômico e razões para a revisão de cenário

O ajuste nas estimativas do Bank of America (BofA) foi motivado por dois vetores. No âmbito doméstico, a adoção de estímulos fiscais considerados expansionistas pelo governo brasileiro pressiona a inflação subjacente, exigindo juros reais mais elevados para conter a demanda. No exterior, o Federal Reserve mantém sinalização de política monetária restritiva, enquanto o fortalecimento global do dólar e o foco de capitais em ativos ligados à Inteligência Artificial reduzem a atratividade relativa da América Latina. Esse conjunto trava a perspectiva de afrouxamento monetário no Brasil no curto e médio prazos.

Com juros projetados mais altos por mais tempo, a relação de risco-retorno das chamadas bond proxies – ações de companhias com fluxo de caixa estável, contratos indexados à inflação e histórico de distribuição de proventos – torna-se sensível ao nível de endividamento. Empresas fortemente alavancadas enfrentam aumento do custo financeiro, o que pressiona margens e pode comprometer a sustentabilidade dos dividendos.

Setores enquadrados como bond proxies e mudanças de preferência

No mercado brasileiro, o BofA inclui nos substitutos da renda fixa os segmentos de energia elétrica, saneamento, rodovias, ferrovias, shoppings e telecomunicações. A instituição destaca que, historicamente, esses papéis mantêm correlação inversa com a taxa básica: quando a Selic cai, a atratividade relativa sobe; quando os juros sobem, o efeito é adverso.

Diante da nova projeção de 14,25 % para 2026 e 13,25 % para 2027, o banco realocou preferências nas carteiras setoriais:

  • Axia Energia (AXIA3): considerada descontada, com preço implícito por MWh a R$ 210 ante estimativa do banco de R$ 260. Taxa Interna de Retorno (TIR) real de 15 % e duration de fluxo de caixa de oito anos.
  • Eneva (ENEV3): expectativa de crescimento de 35 % ao ano no Ebitda entre 2026 e 2029, sustentada por operação de LNG, alta utilização de usinas e expansão de capacidade. TIR real estimada em 14 %.
  • Motiva (MOTV3): substitui a antiga escolha no setor de concessões rodoviárias devido ao endividamento mais baixo. A companhia apresenta duration de seis anos, dívida líquida inferior a 3× Ebitda e TIR real de 13,5 %.
  • Equatorial (EQTL3): permanece como alternativa caso se materialize, no longo prazo, queda de juros, graças ao valuation atrativo (TIR de cerca de 12 %) e duration mais longo – onze anos.

Por outro lado, o banco mantém visão cautelosa para telecomunicações, representadas por Vivo (VIVT3) e TIM (TIMS3), cujas TIRs reais estão abaixo de 9 %. No segmento de shoppings, a preferência recai sobre Allos (ALOS3), sustentada por dividend yield estimado em 13 % para 2026, embora o setor careça de gatilhos evidentes de reprecificação.

Riscos, métricas de avaliação e sensibilidade à taxa de juros

A métrica central usada pelo BofA é a TIR real implícita, calculada a partir dos fluxos de caixa projetados, descontados pela inflação, e comparada aos juros reais de títulos públicos. Quanto maior a diferença positiva, maior a atratividade do papel frente à renda fixa. Esse diferencial, entretanto, pode encolher rapidamente caso a Selic suba além do projetado ou se o prêmio de risco requerido pelos investidores aumentar.

Companhias altamente endividadas, como Ecorodovias (ECOR3), com dívida líquida superior a 4,5× Ebitda e compromissos de investimento de aproximadamente R$ 60 bi (equivalentes a 11× o valor de mercado), ilustram o impacto adverso de um ciclo prolongado de juros elevados. Embora o papel apresente TIR de 18 %, o banco julga que a combinação de alavancagem e capex compromete a relação risco-retorno.

Para investidores que buscam preservação de dividendos, o relatório enfatiza a necessidade de avaliar: i) nível atual de dívida; ii) cronograma de amortização; iii) indexação de receitas; iv) duration dos contratos ou concessões; e v) sensibilidade de custos variáveis aos reajustes de taxas.

Conclusão Técnica: O aumento na estimativa da Selic para 14,25 % reconfigura o perfil de risco das ações classificadas como bond proxies. Segundo o Bank of America, empresas com menor alavancagem, fluxo de caixa resiliente e TIR real acima do juro real soberano surgem como refúgio prioritário para manutenção de dividendos. A recomendação, portanto, desloca o foco para energia elétrica e concessões com estrutura de capital conservadora, ao passo que setores dependentes de forte capex ou margens pressionadas devem permanecer sob acompanhamento cauteloso até que haja sinal claro de inflexão na trajetória de juros.