Atendimento móvel acelera resposta a casos suspeitos da ‘doença do gato’ em Itajaí

Equipes itinerantes da Secretaria Municipal de Saúde de Itajaí começaram a circular nesta semana para identificar, orientar e acompanhar moradores com sinais da chamada “doença do gato”, medida que pretende reduzir o tempo entre a suspeita clínica e o tratamento, conter a cadeia de transmissão e aliviar a demanda nas unidades fixas de atendimento.

Estrutura do serviço móvel e logística operada

O novo formato de assistência foi concebido pela Diretoria de Vigilância em Saúde após o registro de 35 notificações suspeitas de esporotricose – infecção fúngica popularizada como “doença do gato” – somente no primeiro quadrimestre de 2024. Três vans equipadas com kits de coleta de material biológico, insumos de curativo e medicamentos antifúngicos percorrem bairros previamente mapeados por maior incidência de felinos errantes. Cada unidade móvel é composta por um médico, um enfermeiro e um agente de endemias, além de um veterinário que atua de forma integrada quando há necessidade de avaliação do animal envolvido.

O fluxo operacional prevê visita domiciliar agendada por telefone ou indicada pelos postos de saúde. Durante o atendimento, o paciente é submetido a anamnese, exame físico e coleta de raspado cutâneo para cultura micológica. Após a consulta, o material segue para o Laboratório Central de Saúde Pública de Santa Catarina (Lacen-SC), com previsão de laudo em até 72 horas. O diagnóstico confirmado aciona protocolo de distribuição gratuita de itraconazol, fármaco de primeira linha para o tratamento.

Panorama epidemiológico e impacto regional

A esporotricose é causada principalmente pela espécie Sporothrix brasiliensis, fungo que se prolifera em matéria orgânica em decomposição e é transmitido ao ser humano, na maioria dos casos, por arranhões ou mordidas de gatos infectados. De acordo com o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS/SC), o estado registrou 212 casos confirmados em 2023, dos quais 18% ocorreram na região da Foz do Rio Itajaí. A circulação comunitária do agente patogênico, associada ao aumento de animais em situação de rua, elevou o risco de surtos urbanos.

No âmbito municipal, levantamento da Unidade de Zoonoses de Itajaí aponta crescimento de 67% nas notificações desde 2021. O formato móvel, segundo o órgão, tem potencial para reduzir em até 40% o tempo médio entre o aparecimento dos sintomas cutâneos – normalmente lesões nodulares ou ulceradas – e o início da terapêutica, fator decisivo para evitar formas disseminadas da infecção.

Ações complementares de prevenção e educação

Além do atendimento clínico, a iniciativa contempla um cronograma de capacitações para profissionais da rede pública e privada. Clínicos gerais, pediatras e dermatologistas receberão atualizações sobre diagnóstico laboratorial, manejo farmacológico e vigilância de contatos. Paralelamente, agentes comunitários distribuem folhetos educativos com orientações sobre higiene após o manuseio de animais, importância da castração e identificação precoce de lesões suspeitas.

Uma campanha de vacinação antirrábica, já agendada para maio de 2024, servirá também como ponto de triagem para felinos com possíveis sinais de esporotricose. Casos triados serão encaminhados imediatamente às vans, integrando as frentes de controle zoonótico.

Marco regulatório e sustentabilidade financeira

O projeto está amparado na Portaria 2.439/2023 do Ministério da Saúde, que autoriza repasse do Componente de Vigilância em Saúde do Piso de Atenção Básica para ações de controle de zoonoses emergentes. Itajaí recebeu aproximadamente R$ 480 mil destinados à aquisição de veículos, equipamentos de diagnóstico e estoque inicial de antifúngicos. A manutenção do programa será custeada por recursos do orçamento municipal e contrapartida estadual prevista na Resolução 68/2024.

Segundo a Secretária Municipal de Saúde, Ana Paula Aguiar, a projeção orçamentária indica custo operacional mensal de R$ 58 mil, valor inferior à despesa estimada com internações hospitalares em casos avançados da doença. A pasta avalia, ainda, incluir parcerias com universidades locais para estágios supervisionados, ampliando a força de trabalho sem aumento significativo de gastos.

Conclusão técnica e próximos passos

O atendimento móvel para suspeitas de “doença do gato” representa uma estratégia de resposta rápida a um agravo de saúde pública em ascensão. Com logística estruturada, integração laboratorial e financiamento garantido até o fim de 2025, o município projeta reduzir a incidência de formas graves e a propagação do Sporothrix brasiliensis. As equipes continuarão mapeando áreas de risco, ajustando rotas de visita e monitorando indicadores de tempo de diagnóstico, adesão ao tratamento e número de animais encaminhados para avaliação veterinária. Caso as metas de redução permaneçam dentro do intervalo previsto de 25% a 30% ao longo dos próximos 12 meses, a Secretaria pretende submeter o modelo ao Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Santa Catarina para possível replicação em outras cidades com perfil epidemiológico semelhante.