BTG Pactual rebaixa ações brasileiras para neutro e amplia preferência por vizinhos latino-americanos

O BTG Pactual reduziu a recomendação para a bolsa brasileira de overweight para market perform nesta sexta-feira (12), citando incertezas fiscais, trajetória de juros e menor tração nos lucros corporativos, movimento que sucede ajuste semelhante realizado recentemente pelo Bank of America.

Ajuste de recomendação reflete cenário macro mais nebuloso

Na avaliação do BTG Pactual, a combinação de déficit fiscal persistente, debates sobre novo arcabouço orçamentário e dúvidas quanto ao ritmo de cortes da Selic dificulta projetar ganhos acima da média regional para o Ibovespa. O banco recorda que, somente em maio de 2026, o principal índice de ações do país acumulou queda de 7,22%, desempenho mais fraco entre as bolsas latino-americanas monitoradas pelo banco.

O rebaixamento para market perform indica que, no entendimento da equipe de estratégia, o retorno esperado para os ativos listados na B3 não supera de forma material o das demais praças da região no horizonte tático. Ainda assim, o relatório enfatiza que a classificação neutra não configura visão negativa estrutural sobre o país; trata-se, segundo o BTG, de reconhecimento de assimetria insuficiente para sustentar recomendação de compra ampla.

Impacto sobre preços e perspectivas de lucro

Mesmo com a correção recente, os estrategistas do banco consideram prematuro afirmar que as ações brasileiras atingiram ponto de inflexão. A deterioração do ambiente de earnings revision — com cortes sucessivos nas estimativas de lucro de setores cíclicos — e a sensibilidade elevada de duration (longo prazo de maturação de fluxos de caixa) a movimentos de juros prolonga a fase de volatilidade.

Em particular, empresas expostas ao consumo interno e à construção civil sofreram compressão de múltiplos, mas o BTG argumenta que a precificação ainda não reflete integralmente o risco de desaceleração econômica. O banco também frisa que a percepção de prêmio de risco-país segue pressionada, o que eleva o custo de capital e reduz o valor presente de dividendos futuros.

Rotação regional: Colômbia avança; México retrocede

A alteração de visão sobre o Brasil foi acompanhada por mudanças no ranking latino-americano do BTG. A Colômbia foi promovida a overweight, impulsionada pela maior probabilidade de eleição de um candidato identificado como pró-mercado e pela estabilização do quadro fiscal local. Já México passou a ser o único mercado classificado como underweight, refletindo expectativa de menor dinamismo industrial diante da desaceleração dos Estados Unidos.

Peru e Argentina mantiveram status de overweight graças ao avanço de reformas microeconômicas e à dinâmica favorável de commodities metálicas e agrícolas. O Brasil, por sua vez, divide agora a posição neutra apenas com o Chile, país que também enfrenta incertezas constitucionais e fiscais.

Carteira recomendada ancora seleção defensiva

Apesar de reduzir a visão de mercado para a B3, o BTG preservou empresas brasileiras em seu portfólio latino-americano, que contempla 16 ativos. Dos quais, sete são nacionais, ponderados por critérios de execução operacional sólida, resiliência de caixa e governança comprovada:

Itaú Unibanco (ITUB4) – 10,0% | Auren Energia (AXIA3) – 10,0% | Eneva (ENEV3) – 10,0% | Localiza (RENT3) – 10,0% | Motiva (MOTV3) – 7,5% | Equatorial (EQTL3) – 7,5% | Allos (ALOS3) – 4,0%

Entre os papéis estrangeiros, destacam-se Vesta e Ternium (ambos com 7,5%) na exposição mexicana, além de nomes andinos como Credicorp e Buenaventura (3,5% cada). A soma desses ativos visa equilibrar o risco do portfólio com receitas provenientes de setores financeiros, infraestrutura e mineração.

Conclusão técnica

O rebaixamento da bolsa brasileira para neutro, alinhado à decisão anterior do Bank of America, sinaliza que a fase de maior seletividade sobre o mercado local deve persistir enquanto o quadro fiscal não apresentar sinalizações concretas de disciplina e até que haja clareza sobre a cadência de flexibilização monetária. Para os investidores institucionais, a indicação é de rotação parcial para praças latino-americanas com drivers domésticos menos expostos a ruídos políticos imediatos, como Colômbia, Peru e Argentina. Até que a visibilidade sobre a relação dívida/PIB e sobre o ciclo de lucros no Brasil melhore, a expectativa é de manutenção de estratégia defensiva, com preferência por companhias de geração de caixa previsível e baixa alavancagem.