Precipitações registradas na primeira quinzena de maio reduziram a pressão sobre o abastecimento de água em Ibirama, no Alto Vale do Itajaí, depois de quase cinco meses sem chuvas significativas, período que provocou prejuízos agrícolas estimados em R$ 1 milhão e levou o município a decretar situação de emergência.
Impacto econômico e produtivo da seca prolongada
A ausência de chuva entre o final de 2023 e abril de 2024 comprometeu culturas estratégicas para a economia local. A “safrinha” de milho registrou perda de 90 %, enquanto a produção de leite encolheu 30 %. Houve, ainda, quebras relevantes em feijão, soja, pecuária de corte e piscicultura, segundo o diretor de Agricultura, Edson Bittencourt.
Com a redução drástica do rendimento das lavouras, pequenos e médios produtores enfrentaram queda de receita e aumento de custos ligados ao transporte de água para animais e irrigação emergencial. O prejuízo direto estimado de R$ 1 milhão não inclui efeitos secundários na cadeia de suprimentos — como menor compra de insumos e desaceleração do comércio local —, o que amplia o alcance socioeconômico da estiagem.
No pico da crise, cerca de 250 moradores passaram a depender do fornecimento de galões de água potável distribuídos pela prefeitura para atender necessidades básicas, cenário que mobilizou equipes da Defesa Civil e aumentou gastos do erário.
Recuperação dos recursos hídricos e estabilização do abastecimento
As pancadas de chuva que se consolidaram a partir de 1.º de maio elevaram o nível dos reservatórios municipais e reduziram a procura da população por abastecimento emergencial, informa o coordenador da Defesa Civil de Ibirama, José Eduardo do Rosário. O volume acumulado ainda não foi divulgado oficialmente, mas superou em poucas horas os 28 mm registrados durante todo o mês de março — marca considerada insuficiente para recompor nascentes, córregos e o lençol freático.
O retorno gradual das precipitações permitiu suspender a distribuição de água em algumas comunidades rurais e restabeleceu o fluxo em sistemas de captação superficial. Contudo, técnicos alertam que a recuperação completa do solo requer sucessivas semanas de chuva dentro da média histórica de outono, estimada em 130 mm a 150 mm para a região.
Meteorologistas vinculam o déficit hídrico ao comportamento da atmosfera durante o último trimestre do verão, quando a combinação de altas temperaturas e bloqueios atmosféricos reduziu a frequência de frentes frias no Sul do Brasil. A tendência para o restante do outono aponta precipitações irregulares, exigindo acompanhamento constante dos órgãos de proteção e de entidades agrícolas.
Imagem: Prefeitura de Ibirama
Cenário estadual e estratégias de mitigação
O quadro vivido por Ibirama reflete a situação de outros 15 municípios catarinenses que também emitiram decretos de emergência até março, distribuídos entre a Serra, o Grande Oeste e o Meio-Oeste. Em Capão Alto, por exemplo, as perdas ultrapassaram R$ 21 milhões devido à queda na produção agropecuária e à necessidade de carros-pipa para consumo humano e dessedentação animal.
Para mitigar futuros impactos, a Secretaria de Estado da Agricultura, da Pesca e do Desenvolvimento Rural mantém linhas de crédito subvencionado para construção de reservatórios e adoção de sistemas de irrigação eficiente. Já a Defesa Civil de Santa Catarina intensificou o monitoramento por meio de pluviômetros automáticos e plataformas de previsão hidrometeorológica, permitindo respostas mais rápidas a novos episódios de déficit hídrico.
Especialistas recomendam que produtores invistam em manejos de conservação de solo, como plantio direto e cobertura permanente, capazes de aumentar a infiltração de água e reduzir a evaporação. A orientação técnica inclui ainda o escalonamento de cultivos e a diversificação de espécies mais tolerantes à seca, práticas que tendem a amenizar oscilações de rendimento relacionadas ao clima.
Conclusão técnica
A volta das chuvas sinaliza uma fase de transição para a normalidade em Ibirama, mas o restabelecimento completo das atividades agrícolas depende da manutenção de volumes pluviométricos compatíveis com a média sazonal nas próximas semanas. Órgãos municipais e estaduais prosseguem no acompanhamento de reservatórios e lavouras, ao mesmo tempo em que orientam a população sobre uso racional da água e adoção de tecnologias de resistência climática. Caso a regularização das precipitações se confirme, a projeção é de que a safra de inverno e o abastecimento urbano voltem a operar em padrões considerados seguros até o início do segundo semestre.



