Compass (PASS3) revela lucro de R$ 382,2 milhões no 1T26 e expõe pressão dos juros sobre a dívida

Compass divulgou lucro líquido de R$ 382,2 milhões no primeiro trimestre de 2026, avanço de 9% em relação ao mesmo período do ano anterior, mas o resultado financeiro negativo de R$ 424,6 milhões destacou o peso do custo da dívida em um cenário de juros elevados, dois dias após a companhia concluir seu IPO na B3.

Resultados financeiros do 1T26 evidenciam resiliência operacional

A companhia registrou Ebitda normalizado de R$ 1,2 bilhão, incremento anual de 12%, ajustado para efeitos temporais de entrega de carga. O desempenho foi impulsionado pela unidade Edge, que ampliou o volume no segmento on-grid e iniciou operações de GNL B2B off-grid, reafirmando a tese de crescimento apresentada no roadshow do IPO.

Apesar da expansão das margens operacionais, a receita líquida recuou 25% em comparação com o primeiro trimestre de 2025, totalizando R$ 3,16 bilhões. O recuo reflete menor repasse de custos de gás natural no período e mudanças no mix de contratos, fatores que neutralizaram parte da evolução operacional.

Os indicadores apontam para uma operação robusta, capaz de sustentar aumentos de lucro mesmo em ambiente desafiador. Entretanto, a contração na linha de receita demonstra que a companhia permanece exposta à volatilidade de preços de insumos energéticos.

Estrutura de capital sofre com juros altos e amplia prejuízo financeiro

O resultado financeiro negativo cresceu 15% em base anual, atingindo R$ 424,6 milhões. A principal pressão veio do maior gasto com serviço da dívida, influenciado pelo patamar elevado da Taxa Selic durante o trimestre.

A dívida líquida encerrou março em R$ 11,1 bilhões, equivalente a 2,2 vezes o Ebitda normalizado. Embora o múltiplo permaneça dentro de limites historicamente administráveis para o setor de infraestruturas de gás, a combinação de custos financeiros altos e receita em queda monitora a capacidade de desalavancagem no curto prazo.

O IPO de R$ 3,2 bilhões, concluído em 11 de maio de 2026, foi integralmente secundário; portanto, os recursos não reforçaram o caixa corporativo. A alocação da oferta concentrou-se nos acionistas vendedores, inclusive a controladora Cosan, que visa reduzir sua própria alavancagem. A ausência de entrada de capital novo mantém a necessidade de gestão prudente da estrutura de endividamento da Compass.

Desempenho das ações após a oferta e reação do mercado

No encerramento da primeira sessão pós-estreia, em 11 de maio, PASS3 fechou a R$ 27,39, 2,2% abaixo do preço de oferta pública inicial (R$ 28,00). Dois dias depois, já com o balanço do 1T26 divulgado, o papel terminou cotado a R$ 26,74, leve alta de 0,15% no dia, mas ainda 4,5% inferior ao valor do IPO.

Analistas atribuem o comportamento das cotações a uma combinação de realização de lucros em ofertas recentes, aversão global a risco e cautela quanto ao perfil de dívida da empresa. O balanço reforçou a percepção de crescimento operacional, porém evidenciou que o ritmo de expansão pode ser moderado pelo cenário de juros.

O volume de negociação permaneceu acima da média do setor de utilidades, indicando interesse consistente de investidores institucionais em compor posições estratégicas de longo prazo, ainda que a precificação reflita o aumento da percepção de risco.

Indicadores operacionais reforçam tese de crescimento no segmento de gás

A plataforma de negócios da Compass está ancorada na expansão de infraestrutura de transporte e distribuição de gás natural no Brasil. No trimestre, a demanda on-grid apresentou crescimento, beneficiada pelo consumo industrial firme, enquanto o projeto de GNL B2B off-grid iniciou fornecimento a clientes remotos, diversificando fontes de receita.

Os contratos de longo prazo firmados com grandes consumidores industriais oferecem previsibilidade de fluxo de caixa. Adicionalmente, a empresa mantém projetos de expansão de dutos regionais, cuja execução depende da obtenção de licenças e do cronograma regulatório. Esses fatores sustentam potenciais ganhos de escala, mas requerem investimentos significativos nos próximos ciclos.

Em relação aos custos, a companhia segue exposta à volatilidade cambial e à cotação internacional do petróleo, que influenciam os preços de molécula de gás. Estratégias de hedge cambial e repasse parcial de preços aos contratos indexados mitigam parte do risco, mas não eliminam completamente o impacto nas margens.

Conclusão Técnica

O balanço do 1T26 confirma a capacidade da Compass de gerar expansão de lucro e Ebitda mesmo diante de retração de receita, sustentada pelo desempenho da unidade Edge e pela diversificação no fornecimento de GNL. Entretanto, o quadro de juros altos elevou o custo da dívida e ampliou o resultado financeiro negativo, mantendo a alavancagem em patamar que exige disciplina de capital. Sem recursos primários oriundos do IPO, a trajetória de desalavancagem dependerá de geração de caixa operacional e eventuais reestruturações de passivo. Para os próximos trimestres, a atenção do mercado volta-se à evolução do preço do gás, à capacidade de repasse de custos e à execução de projetos de expansão que possam incrementar a receita e diluir despesas financeiras.