O Instituto Médico-Legal de Florianópolis opera com efetivo insuficiente e um aparelho de raio-x inoperante há mais de um ano, segundo o deputado estadual Sérgio Guimarães (União); a precariedade teria favorecido a troca de corpos descoberta em 8 de maio, envolvendo três vítimas distintas.
Escassez de profissionais sobrecarrega atendimentos
Durante visita não anunciada ao IML do bairro Itacorubi, Sérgio Guimarães relatou ter encontrado nove corpos simultaneamente em necropsia, cenário que, segundo ele, ilustra a sobrecarga gerada por recentes alterações na escala de plantão. Servidores afirmaram que o quadro, anteriormente composto por três agentes por turno, passou a contar com apenas dois funcionários, na tentativa de redistribuir folgas. A mudança, entretanto, resultou em atrasos na liberação de corpos e acumulação de atividades fora da atribuição original de cada categoria profissional.
Plantonistas relataram ainda que legistas passaram a executar tarefas auxiliares — como identificação e movimentação de cadáveres — para compensar a ausência de técnicos. A unidade é a única a atender 22 municípios da Grande Florianópolis, contexto que amplia a pressão sobre o serviço forense, principalmente em períodos de aumento de mortes violentas.
Raio-x fora de serviço compromete perícias balísticas
Outro ponto destacado pelo parlamentar é o raio-x pericial desativado desde 2023. O equipamento, essencial para localizar projéteis em vítimas de disparos de arma de fogo, permanece sem manutenção. Na ausência da ferramenta, os profissionais precisam realizar abertura completa do tórax e abdômen para busca manual de fragmentos metálicos, processo que prolonga a necropsia e expõe operadores a maior risco biológico.
Servidores afirmam que pedidos de reparo foram encaminhados à Polícia Científica de Santa Catarina, mas não houve reposição nem conserto até o momento. Para o deputado, a soma de recursos humanos reduzidos e tecnologia indisponível cria um ambiente propício a erros operacionais, como o registrado na primeira semana de abril.
Troca de corpos e abertura de investigação interna
A falha veio à tona quando a família de Juliano Henrique Guadagnin da Silva, motociclista de 24 anos morto em acidente em 9 de abril, recebeu o aviso de que havia sepultado outra pessoa. O corpo do jovem permaneceu no necrotério enquanto o cadáver de Denner Dario Colodina, vítima de homicídio, foi enterrado em seu lugar no Cemitério do Rio Vermelho. Já Patrick Nunes Ferreira, morto no mesmo episódio de violência, foi confundido com Denner e sepultado no Cemitério do Itacorubi.
Imagem: Reprodução
Em nota, a Polícia Científica reconheceu o “erro operacional” e informou que o próprio sistema de controle interno identificou a inconsistência. A Corregedoria abriu procedimento para apurar causas, responsabilidades e eventuais sanções disciplinares. Entre as primeiras medidas está a revisão dos protocolos de custódia, identificação e liberação de corpos.
O gabinete de Sérgio Guimarães protocolou ofícios na Secretaria de Segurança Pública e na direção da Polícia Científica solicitando recomposição imediata do quadro funcional e reparo do raio-x. O parlamentar defende ainda a construção de um segundo IML em Palhoça, projeto que tramita internamente no governo estadual, mas alerta que a infraestrutura física só será eficaz se acompanhada da contratação de especialistas.
Conclusão Técnica
Até o momento, o IML de Florianópolis continua operando com número reduzido de servidores e sem o equipamento de imagem, enquanto a investigação interna segue em curso para mapear falhas no fluxo de liberação de cadáveres. A troca de corpos expôs vulnerabilidades que podem se repetir caso não haja reforço de pessoal, manutenção de aparelhos críticos e revisão de escalas.
Os próximos passos incluem: deliberação da Secretaria de Segurança Pública sobre a recomposição de efetivo, definição de orçamento para conserto ou aquisição de novo raio-x e análise técnica do projeto do segundo necrotério em Palhoça. A conclusão dessas etapas será determinante para reduzir atrasos, evitar novos erros de identificação e restabelecer a confiabilidade dos serviços periciais na Grande Florianópolis.



