Déficit de neurologistas mantém 5,7 mil pacientes na fila do SUS em Joinville e expõe risco de agravamento clínico

Mais de 5,7 mil moradores de Joinville aguardam consulta neurológica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) há até três anos, situação que já provoca perda de memória, convulsões sem controle e risco de morte para portadores de epilepsia e outras doenças crônicas.

Dimensão da fila e impacto direto nos pacientes

A base oficial mais recente da Secretaria Municipal da Saúde registra 5.698 usuários na espera por atendimento com neurologista adulto. Entre eles está Tatiani Ribeiro Ramos, de 43 anos, afastada por invalidez devido a epilepsia. Protocolada na lista em março de 2023, ela ocupa hoje a posição 3.109.

O tempo sem avaliação especializada já produziu sequelas cognitivas. Segundo relatou à NDTV, “a primeira delas é a memória, estou bem esquecida”. Além do impacto neuropsicológico, as convulsões frequentes reduzem sua mobilidade, impedem saídas de casa e comprometem a qualidade de vida.

Especialistas alertam que atrasos no ajuste preciso das medicações elevam em até três vezes o risco de crises prolongadas e em 20% a probabilidade de complicações fatais, como o status epilepticus.

Oferta de profissionais e gargalos estruturais

O Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC) contabiliza 468 neurologistas ativos no Estado. Desses, apenas 62 atuam em Joinville, município que concentra mais de 615 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2024.

A proporção resultante — um especialista para cada 9.900 habitantes — fica abaixo da recomendação de um neurologista para 4 mil pessoas, parâmetro sugerido pela Federação Mundial de Neurologia. Conforme o Sindicato dos Médicos de Santa Catarina, a defasagem se agrava pela ausência de condições adequadas de trabalho na rede pública, o que desestimula a fixação de profissionais.

Para o neurologista Felipe Ibianina, integrante da Academia Brasileira de Neurologia, não basta ampliar o quadro de pessoal. “É preciso garantir estrutura diagnóstica, agenda estável e acesso a exames complementares; caso contrário, o atendimento perde efetividade”, explicou.

Critérios da fila e medidas emergenciais

A Prefeitura afirma que a ordenação da lista segue prioridade clínica e critérios legais, sem obediência estrita à data de entrada. Pacientes com risco iminente de sequelas irreversíveis recebem classificação preferencial.

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Imagem: Luciano Senderski

Como resposta imediata, o município firmou convênio com o Hospital Bethesda, que iniciou consultas neurológicas em dezembro de 2025. O aditivo contratual prevê 2.000 atendimentos em 12 meses, quantia que cobre cerca de 35% da demanda atual.

A estruturação inclui ainda a dotação de sala de eletroencefalograma, oferta de ressonância magnética em caráter complementar e teleconsultorias entre atenção básica e especialistas hospitalares, estratégia alinhada ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS).

Riscos clínicos associados ao atraso

Na epilepsia, intervalos prolongados sem monitoramento elevam a resistência a fármacos de primeira linha. Estudos do Instituto de Pesquisa em Saúde Coletiva indicam que, após 24 meses sem ajuste medicamentoso, 30% dos pacientes desenvolvem crises refratárias. O quadro também se aplica a Parkinson, esclerose múltipla e neuropatias periféricas.

Além das consequências individuais, a demora gera sobrecarga financeira ao sistema. Internações por complicações neurológicas custaram, em 2023, R$ 12,6 milhões aos cofres públicos catarinenses, segundo o DataSUS, valor 18% superior ao do ano anterior.

Conclusão técnica

A fila de 5.698 pacientes em Joinville reflete déficit de especialistas, infraestrutura insuficiente e demanda crescente por cuidados neurológicos. O convênio com o Hospital Bethesda pode absorver parte da procura, porém não elimina o passivo acumulado nos últimos três anos. Para estabilizar o cenário, a gestão municipal precisará ampliar a oferta de consultas presenciais, investir em exames de apoio diagnóstico e adotar protocolos de estratificação de risco que reduzam eventos graves enquanto o atendimento definitivo não ocorre.