Dolarização do patrimônio torna-se estratégia estrutural entre brasileiros de alta renda diante de juros de 14,5%

A combinação de déficits fiscais recorrentes, Selic em 14,5% a.a. e volatilidade cambial tem acelerado a dolarização do patrimônio de famílias brasileiras com grande volume de recursos, convertendo uma prática antes eventual em componente permanente das carteiras, conforme detalhou Emmanuel Hermann, fundador do Leste Group, em entrevista ao canal ND+ Negócios&Dinheiro.

Panorama macroeconômico: déficits persistentes e juros elevados

O desafio fiscal brasileiro, traduzido por um déficit primário que se mantém superior a 1% do PIB desde 2020, pressiona as curvas de rendimento e eleva o custo do capital. Para conter a inflação, o Banco Central sustenta a taxa básica próxima de 14,5% ao ano, patamar que, segundo Hermann, atrai fluxos de curto prazo, mas não oferece solução estrutural. “O governo não tem capacidade de manter inflação em 4% e juros em 14% por muito tempo”, alertou o gestor, sinalizando que um recuo da Selic pode intensificar a busca por ativos atrelados ao dólar.

Essa conjuntura reforça a percepção de que a taxa de câmbio tende a responder negativamente quando os rendimentos domésticos convergirem a níveis menores. O histórico recente respalda a tese: o real perdeu cerca de 45% do valor frente ao dólar na última década, corroendo o poder de compra de portfólios concentrados em ativos locais.

Estratégias de alocação: muito além da compra direta de dólar

No universo de wealth management, dolarizar o patrimônio transcende a aquisição de moeda estrangeira em espécie. Gestoras independentes e bancos privados vêm estruturando veículos que oferecem exposição a múltiplas classes denominadas em dólar:

  • Fundos multimercado com mandato global e hedge de câmbio implícito;
  • Títulos de renda fixa de emissores investment grade nos Estados Unidos, com vencimentos entre 2 e 10 anos;
  • Real Estate Investment Trusts (REITs) listados nas bolsas de Nova York, que distribuem rendimentos atrelados a contratos indexados à inflação norte-americana;
  • Participações minoritárias em empresas privadas estrangeiras via fundos de private equity, permitindo captura de crescimento em moeda forte.

De acordo com relatórios de alocação divulgados por gestoras locais, a fatia média dedicada a ativos internacionais em carteiras de alta renda subiu de 12% em 2019 para 27% em 2023, indicando mudança de caráter tático para estratégico. A correlação reduzida desses investimentos com o ciclo doméstico funciona como contrapeso a choques fiscais ou políticos.

Impacto cambial: desvalorização do real em perspectiva histórica

Entre 2013 e 2023, o câmbio saiu de R$2,03/US$ para o intervalo de R$4,90 a R$5,50/US$, variação que desmontou posições integralmente concentradas em renda fixa brasileira. Estudos de casas de análise apontam que uma carteira balanceada — 60% em ativos locais e 40% em dólares — teria preservado até 15 p.p. de retorno real adicional no período, justamente pelo ganho cambial.

Dolarização do patrimônio torna-se estratégia estrutural entre brasileiros de alta renda diante de juros de 14,5% - Imagem do artigo original

Imagem: Reprodução

Essa estatística reforça a recomendação de que a exposição a moedas fortes seja tratada como classe de ativo própria, e não apenas como cobertura pontual contra crises. A lógica vale principalmente para famílias com horizonte superior a dez anos, nas quais a preservação de poder de compra supera objetivos de liquidez imediata.

Perspectivas: especialistas projetam aumento da demanda por ativos internacionais

Com a trajetória de queda esperada para a Selic a partir de 2024, analistas do mercado privado estimam que o diferencial de juros Brasil-EUA — hoje em torno de 900 basis points — caia para 500 bps ou menos até 2026. Esse estreitamento tende a reduzir a atratividade do “carry trade” que sustenta parte dos ingressos de capital estrangeiro, pressionando o real.

Nesse cenário, instituições financeiras locais têm intensificado ofertas de produtos atrelados ao dólar, antecipando migração de recursos domésticos. Plataformas de investimentos reportaram crescimento de 35% nas aplicações em fundos internacionais somente no primeiro semestre de 2023, estatística que corrobora a leitura do Leste Group.

Conclusão técnica

O avanço da dolarização patrimonial reflete uma resposta calculada de investidores de alta renda ao tripé formado por déficit fiscal elevado, selic em dois dígitos e volatilidade cambial. Enquanto não houver ajuste consistente das contas públicas e convergência sustentável da inflação, a procura por ativos em moeda forte deverá se consolidar como vetor permanente nas estratégias de preservação de capital. Gestores monitoram a dinâmica entre Selic e Federal Funds Rate; qualquer redução abrupta do prêmio de risco doméstico pode acelerar ainda mais a alocação internacional nas carteiras brasileiras.