Edge, divisão de mercado livre de gás da Compass (PASS3), registrou salto de 27 % no volume comercializado no 1T26 e tornou-se peça central para amortecer os efeitos da escalada dos preços de energia decorrente do conflito no Oriente Médio, que elevou custos de petróleo e gás natural em todo o mundo.
Resultados financeiros do 1T26: expansão operacional ofuscada pelo custo de capital
A Compass divulgou seus primeiros números após a abertura de capital, reportando Ebitda consolidado de R$ 1,33 bilhão, avanço de 2 % em relação ao mesmo período de 2025. Ajustando-se a antecipações de vendas que serão entregues nos próximos trimestres, o crescimento normalizado atingiria 12 %.
Apesar da expansão operacional, o lucro líquido recuou, pressionado por custo de capital mais elevado e despesas financeiras vinculadas a empréstimos indexados a taxas internacionais. A administração sinalizou que a prioridade permanece na disciplina de alavancagem, mesmo diante de oportunidades de arbitragem de preço no exterior.
No âmbito macroeconômico, o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz restringiu a navegação de navios-tanque e encareceu o gás natural, insumo crucial para a companhia. O risco de retração da demanda, entretanto, foi considerado limitado pela direção: outras fontes energéticas, como diesel e óleo combustível, encareceram ainda mais, preservando a competitividade relativa do gás e do biometano.
Edge amplia plataforma integrada de gás, GNL e biometano
Criada há pouco mais de dois anos, a Edge inaugurou em março a planta Onebio, voltada à produção de biometano a partir de resíduos orgânicos. O combustível renovável é injetado diretamente na malha de distribuição, reforçando a estratégia de descarbonização do portfólio e garantindo margem adicional em contratos indexados à variação do diesel.
Paralelamente, a divisão iniciou o fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) para regiões fora da rede de gasodutos, explorando a estrutura do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), navio ancorado no porto de Santos. A embarcação permite a entrega do combustível por rodovia em um raio de até 1 200 km, abrindo mercado em polos industriais do Centro-Oeste e do interior do Sudeste.
Com esses movimentos, o Ebitda da Edge recuou 14 % no critério contábil tradicional, mas, ao excluir volumes já vendidos e ainda não entregues, houve alta de 36 %. A variação reflete a decisão da gestão de antecipar contratos de exportação para capturar preços internacionais mais atrativos.
Imagem: Internet
Efeitos geopolíticos e arbitragem internacional elevam margens
A guerra no Oriente Médio reduziu a oferta de gás para a Europa e deslocou fluxos de fornecimento para a Ásia, elevando prêmios regionais. Aproveitando o diferencial, a Edge vendeu lotes de GNL programados para o segundo semestre já no primeiro trimestre, registrando receita imediata sem comprometer a entrega física—prevista para ocorrer nos meses seguintes.
Segundo o presidente executivo Antonio Simões, a estratégia de arbitragem permanece condicionada à “geração incremental de margem”. Contratos firmes asseguram fornecimento doméstico, permitindo redirecionar parte da produção excedente ao exterior quando o spread justificar.
Além da arbitragem, a adoção do biometano cria uma alavanca de competitividade interna. O gás renovável pode ser vendido a clientes interessados em metas ambientais, enquanto contribui para a diversificação de fonte em um cenário de volatilidade internacional.
Conclusão técnica: resiliência operacional e próximos passos
Os resultados do 1T26 confirmam a Edge como pilar de crescimento e mitigação de risco na holding Compass. A combinação de biometano, GNL logístico e contratos flexíveis oferece respostas rápidas às flutuações de preço geradas por choques geopolíticos. No curto prazo, a administração pretende:
- Prosseguir na otimização de portfólio, equilibrando vendas domésticas e exportações para maximizar margens;
- Expandir a capacidade da planta Onebio e avaliar novos projetos de biometano em regiões com alta oferta de resíduos agrícolas;
- Negociar novos acordos de fornecimento de GNL a clientes industriais fora da malha de gasodutos, reforçando a presença em mercados de médio porte.
Embora o cenário externo permaneça volátil, a diversificação de origens de gás e a flexibilidade logística posicionam a Compass para absorver variações de preços, mantendo crescimento de Ebitda e defendendo rentabilidade mesmo sob pressões de custo de capital.



