Um memorando de entendimento firmado entre Estados Unidos e Irã, confirmado por ambas as chancelarias nesta segunda-feira (15), prevê a normalização do fluxo de petróleo iraniano a partir de julho e desencadeia revisões expressivas de preço para petróleo, metais preciosos e alumínio, de acordo com relatório do Citi.
Fluxo iraniano pressiona o Brent: três cenários traçados pelo Citi
O texto preliminar do memorando – que deve ser assinado formalmente na próxima sexta-feira (19) – aponta para a retirada gradual de sanções e para a liberação de exportações iranianas. A instituição financeira calcula probabilidade de 60 % para que o acordo avance sem rupturas (cenário base), 20 % para um desfecho mais favorável ao preço do petróleo e outros 20 % para um quadro baixista acentuado.
No cenário base, o petróleo iraniano retornaria de forma sustentada ao mercado, adicionando cerca de 1,4 milhão de barris/dia até o quarto trimestre. Esse volume, somado a estoques internacionais já elevados, projeta excedente médio de 4 milhões de barris/dia entre 2026 e 2027. A consequência direta é a revisão do preço-alvo do Brent para US$ 75 no 3º trimestre, US$ 70 no 4º trimestre e US$ 65 em 2027, ante estimativas anteriores que alcançavam US$ 110.
Nessa segunda-feira, o contrato Brent de referência global encerrou em US$ 83,49, queda de 4,4 %, refletindo a confirmação do entendimento. O Citi avalia que o mercado ainda não precificou totalmente um fluxo iraniano contínuo; caso a assinatura seja acompanhada de implementação rápida, o banco projeta recuo adicional de US$ 10 a US$ 15 por barril.
No cenário otimista para a commodity, tensões residuais no Oriente Médio – especialmente entre Israel e Líbano – poderiam interromper temporariamente a oferta. Entretanto, liberações coordenadas de estoques estratégicos pela Agência Internacional de Energia tenderiam a conter picos abruptos. Já no quadro baixista, avanço simultâneo da produção na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã, aliado a eventual distensão entre Rússia e Ucrânia, aceleraria a formação de excedentes e pressionaria ainda mais as cotações.
Ouro e prata: reprecificação diante da redução do prêmio geopolítico
A menor percepção de risco derivada do acordo desloca parte do capital especulativo das commodities energéticas para os metais preciosos. O Citi elevou a meta de curto prazo para o ouro de US$ 4.000 para US$ 4.500 por onça-troy e para a prata de US$ 60 para US$ 70. No pregão de hoje, o ouro para agosto avançou 2,7 %, encerrando em US$ 4.351,60, enquanto a prata para julho subiu 3,2 %, para US$ 70,18.
Para horizonte de seis a doze meses, a projeção de US$ 5.000 por onça permanece, embora o banco destaque que oscilações relevantes não estão descartadas. O vetor principal é a reacomodação do diferencial de juros reais globais e a demanda institucional por ativos defensivos, fatores historicamente reforçados em períodos de transição geopolítica.
O Citi pondera, contudo, que eventual descompressão do preço do petróleo pode arrefecer parcialmente pressões inflacionárias, reduzindo a atratividade relativa dos metais. Ainda assim, a instituição sustenta perspectiva construtiva para o ouro, sustentada pela diversificação de reservas de bancos centrais de mercados emergentes.
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Alumínio: fundamentos apontam déficit estrutural e oportunidade de compra
Ao contrário da reação inicial do mercado — queda imediata dos contratos futuros de alumínio após o anúncio — o Citi recomenda aproveitar a realização para montar posição compradora. O banco projeta valorização de 15 % a 20 %, com a tonelada passando dos atuais US$ 3.400 para cerca de US$ 4.000 em até seis meses.
O racional é duplo. Primeiro, o setor enfrenta o maior choque de oferta de sua história, decorrente do fechamento de smelters energointensivos na Europa e na China. Segundo, a retomada da produção exige entre 6 e 18 meses, janela que coincide com o incremento de demanda oriundo da transição energética e, agora, da potencial normalização econômica iraniana pós-acordo.
Estoques monitorados por bolsas internacionais vêm caindo desde o início do ano e podem atingir patamares críticos até o final do terceiro trimestre, acentuando o desequilíbrio entre oferta e procura. Nesse contexto, a redução do prêmio de risco geopolítico não altera – e até reforça – a perspectiva de escassez física do metal.
Conclusão técnica e próximos passos
A assinatura formal do memorando EUA-Irã nesta sexta-feira é o gatilho imediato para a reprecificação de ativos ligados a petróleo, ouro, prata e alumínio. No petróleo, a expectativa de excedente estrutural pressiona o Brent rumo a patamares próximos de US$ 70, enquanto metais preciosos ganham espaço como reserva de valor em ambiente de menor tensão, mas ainda cercado de incertezas macroeconômicas. Já o alumínio apresenta fundamentos próprios de déficit que independem da trégua geopolítica, configurando-se como oportunidade de compra tática.
Para o investidor brasileiro, a trajetória dessas cotações influencia tanto fundos de commodities quanto empresas listadas expostas a petróleo e mineração. A evolução das negociações, a velocidade de retorno da oferta iraniana e a resposta de outros produtores serão variáveis decisivas a acompanhar nas próximas semanas.



