A Justiça decretou a falência da tradicional fabricante de móveis Três Irmãos, fundada em 1971 em Campo Alegre (SC), após o passivo atingir R$ 133 milhões; a administradora judicial Recupere assumirá inventário, avaliação e posterior leilão dos bens.
Origem e expansão da marca ao longo de cinco décadas
A Três Irmãos iniciou as atividades como uma marcenaria artesanal voltada à produção de carroças em 1971, no Planalto Norte catarinense. Durante os anos 1980 e 1990, a companhia especializou-se em móveis de madeira maciça, conquistando distribuidores regionais. O ponto de inflexão ocorreu em 2009, quando passou a exportar para a rede sueca IKEA, elevando o faturamento e abrindo portas em novos mercados internacionais.
Para atender à demanda externa, a empresa adquiriu uma planta fabril em Caçador no ano de 2016 e, quatro anos depois, inaugurou um parque industrial em São Bento do Sul. No auge, o grupo empregava 500 colaboradores e mantinha carteira diversificada de clientes na Europa, América do Norte e Oriente Médio.
Eventos que precipitaram o colapso financeiro
A crise iniciou-se em 2021, no contexto da pandemia de covid-19, quando o custo do frete marítimo de contêineres saltou para até US$ 10 mil, comprometendo a competitividade das exportações. Simultaneamente, houve aumento expressivo nos preços de matérias-primas como MDF, colas e vernizes, além de encarecimento do capital devido à elevação das taxas de juros nacionais.
No âmbito setorial, as exportações moveleiras de Santa Catarina recuaram 27,7 % em 2023, segundo dados do governo estadual, impactando o fluxo de caixa da Três Irmãos. Para mitigar a pressão, a direção solicitou recuperação judicial em 2024, porém não cumpriu requisitos essenciais, como pagamento de credores prioritários e prestação de contas detalhada.
Em abril de 2026, a companhia promoveu leilão de ativos avaliados em cerca de R$ 7 milhões — entre imóveis rurais e máquinas — mas o montante arrecadado não foi destinado conforme determinado em juízo. As operações fabris foram oficialmente paralisadas em 14 de maio de 2026, caracterizando abandono do parque industrial.
Decisão judicial e principais irregularidades apontadas
O pedido de falência foi protocolado pelo Ministério Público em junho de 2026. Na sentença proferida em 10 de junho, o magistrado elencou quatro irregularidades graves:
Imagem: Reprodução
- Inadimplemento de credores: débitos de R$ 210 mil e R$ 175 mil não honrados.
- Falta de prestação de contas: ausência de demonstração do destino de R$ 3,25 milhões obtidos com venda de ativos.
- Cancelamento de parcelamentos fiscais: rompimento de acordos de ICMS com o Governo de Santa Catarina e pendências junto à Receita Federal.
- Esvaziamento patrimonial: remoção não autorizada de maquinário de grande porte e encerramento das atividades sem comunicação prévia.
Com base nesses fatores, foi expedido mandado para lacração imediata da sede e das filiais, além da nomeação da Recupere como administradora judicial responsável por arrecadar, inventariar e avaliar todos os ativos físicos e financeiros.
Próximos passos processuais e repercussões no setor
Conforme o rito da Lei de Falências (Lei 11.101/2005), a administradora publicará edital convocando credores para habilitação ou divergência de valores. Após a consolidação do quadro-geral de credores, ocorrerá o leilão dos bens, cujo resultado será destinado à quitação proporcional do passivo, obedecendo a ordem legal de prioridades.
Especialistas do setor moveleiro apontam que o encerramento da Três Irmãos retira do mercado regional uma capacidade instalada superior a 30 mil m² de área fabril e reduz a oferta de cerca de 25 mil peças mensais de mobiliário em madeira maciça. A expectativa é de redistribuição dos antigos contratos de exportação entre indústrias localizadas em São Bento do Sul, Rio Negrinho e municípios do Vale do Itajaí.
Conclusão técnica
Com o decreto de falência em vigor, a Três Irmãos passa oficialmente do regime de recuperação judicial para liquidação completa dos ativos. A fase imediata compreende lacração patrimonial, inventário detalhado e abertura de prazo para habilitação de credores. O leilão dos bens determinará o grau de cobertura do passivo de R$ 133 milhões; apenas após a homologação dos resultados será possível mensurar o percentual efetivo de pagamento a fornecedores, instituições financeiras e funcionários. Até a conclusão do processo, estimada para os próximos anos, o parque industrial permanecerá fora de operação e sem perspectivas de reativação.



