Introdução (Lead):
Executivos de referência no ecossistema de inovação afirmaram durante o Web Summit Rio 2026 que, apesar de a terceira onda de tecnologia brasileira já estar em curso, a escassez de capital e a necessidade de avanços regulatórios ainda freiam a transformação de startups locais em gigantes globais.
Terceira onda da tecnologia nacional: do mercado interno à ambição global
Eric Acher, cofundador da Monashees, classificou a atual fase do setor como a “terceira grande onda” da indústria de tecnologia no país. A primeira colocou o Brasil no mapa da inovação, a segunda consolidou empresas de classe mundial operando localmente e, agora, a terceira mira a projeção internacional. Segundo Acher, a comparação adequada não é com o Silicon Valley contemporâneo, mas com os Estados Unidos da década de 1980, cerca de 15 anos após o início estrutural daquele mercado de venture capital.
O presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, corroborou a avaliação. Para ele, empreendedores nacionais tornaram-se mais resilientes e capazes de atacar problemas regionais complexos que, ao serem solucionados, geram soluções exportáveis. O evento, que reúne mais de 40 mil participantes no Rio de Janeiro, torna-se vitrine para validar essa narrativa de amadurecimento.
Capital insuficiente e ciclos de investimento: o gargalo do crescimento
A disponibilidade de recursos financeiros surgiu como o obstáculo central. Acher destacou que o volume de dinheiro hoje alocado em startups brasileiras é “desproporcional” quando comparado ao potencial identificado. O momento de contração global de venture capital agrava o cenário, mas, segundo o investidor, a lacuna já existia antes da recente volatilidade macroeconômica.
Em 2025, os aportes em equity privado no país somaram aproximadamente US$ 3,4 bilhões, queda de 42 % em relação a 2024, de acordo com dados da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP). Para efeito de comparação, apenas o estado da Califórnia mobilizou mais de US$ 60 bilhões no mesmo período. A discrepância dimensiona a distância entre ambição global e capacidade de financiamento.
Acher argumentou que ciclos de liquidez são intrínsecos ao mercado, mas defendeu a necessidade de instrumentos mais diversificados — como fundos de fundos e debêntures conversíveis — para mitigar o hiato durante períodos de retração. A ausência de linhas de crédito de longo prazo específicas para inovação também amplia a dependência do capital estrangeiro, sujeito a variações cambiais e ao humor internacional.
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Papel do Estado: remover barreiras e garantir segurança regulatória
Enquanto capital privado não se amplia na velocidade desejada, os painelistas apontaram o ambiente institucional como variável de alavancagem. Acher enfatizou que reguladores nacionais, ao longo dos últimos 10 a 15 anos, criaram bases competitivas relevantes, citando a Lei da Liberdade Econômica e o Marco Legal das Startups.
Coelho reforçou que segurança jurídica continua determinante para a atração de fluxos internacionais. O Marco Civil da Internet (2014) e a Lei Geral de Proteção de Dados (2018) foram listados como avanços estruturais; porém, gargalos persistem em infraestrutura digital, conectividade de alta velocidade e simplificação tributária.
O executivo do Google defendeu prioridade a investimentos públicos em backbone de fibra óptica e políticas de espectro que barateiem o 5G. Sem esses fundamentos, mesmo produtos inovadores enfrentam limitações de escala doméstica, etapa crítica antes da internacionalização.
Conclusão Técnica
Os debates no Web Summit Rio 2026 convergem em dois vetores: maturidade operacional das startups brasileiras e insuficiência de capital proporcional ao potencial do mercado. A “terceira onda” descrita por Eric Acher já demonstra capacidade exportadora, mas depende de um ciclo financeiro mais robusto e contínuo. A curto prazo, espera-se maior diversificação de instrumentos de investimento e ajustes regulatórios direcionados à redução de burocracia. A médio prazo, o avanço em infraestrutura digital e a consolidação de marcos legais devem consolidar a segurança institucional e destravar aportes estrangeiros. O monitoramento de políticas de fomento e de novas rodadas de financiamento será decisivo para avaliar se o Brasil converterá seu ecossistema promissor em líderes globais de tecnologia.



