Fim das tensões eleva apetite por risco e Itaú prevê volta maciça de investidores estrangeiros à B3

O Itaú Unibanco avalia que a pacificação do conflito envolvendo Estados Unidos e Irã pode reverter a saída de R$ 14,9 bilhões registrada em maio e reacender o fluxo de capital estrangeiro para a B3 nos próximos meses, mesmo diante das megacapitalizações do setor de tecnologia nos Estados Unidos.

Fluxo estrangeiro em maio indica estresse pontual, não mudança estrutural

A retração de investidores internacionais no mercado secundário da B3 atingiu a maior marca desde janeiro de 2022, conforme levantamento da Elos Ayta. O movimento coincidiu com a escalada militar no Oriente Médio, que ampliou a busca global por ativos de menor risco e interrompeu a tendência de ingresso iniciada no primeiro trimestre.

Em coletiva de imprensa realizada em 17 de junho de 2026, Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú Unibanco, detalhou que a aversão gerada pela incerteza geopolítica distorceu temporariamente a avaliação de risco dos mercados emergentes. Segundo o executivo, a normalização desse cenário tende a reposicionar países como o Brasil dentro do portfólio global de alocação.

“Resolvido o conflito e reduzido o prêmio de risco, o Brasil voltará a receber fluxo estrangeiro”, afirmou Wu. O banco trabalha com a hipótese de que o acordo diplomático em andamento reduza a volatilidade cambial, elemento considerado decisivo para estratégias de entrada em bolsa.

Brasil integra elo essencial da cadeia de crescimento tecnológico

Mesmo sem produzir semicondutores avançados ou modelos proprietários de linguagem, o país participa do círculo de insumos que sustentam a rápida expansão de data centers globais. Energia elétrica, minério de ferro, cobre, alumínio e celulose figuram na cesta de matérias-primas que abastecem a indústria de computação de alto desempenho.

Segundo Wu, o chamado “terceiro círculo” da revolução tecnológica concentra fornecedores de recursos naturais que viabilizam a construção física da infraestrutura computacional. A redução do estresse geopolítico liberaria o investidor internacional para buscar exposição indireta a essa dinâmica, favorecendo empresas brasileiras produtoras de commodities e utilidades.

O estrategista avalia que ofertas públicas iniciais trilionárias previstas para o mercado norte-americano, como a da SpaceX, não irão desviar o capital disponível para emergentes. “Existe a percepção equivocada de que todo recurso aplicado nas gigantes de tecnologia sai, necessariamente, de outros mercados de renda variável. Na prática, parte relevante desse montante pode migrar de títulos do Tesouro dos Estados Unidos”, explicou.

Desvalorização gradual do dólar reforça tese pró-B3

Na leitura do Itaú, os Treasuries perderam parte do status de porto seguro em função do déficit fiscal elevado e da inflação persistente nos Estados Unidos. A combinação pressiona a moeda norte-americana e estimula a diversificação para praças com perspectiva de crescimento real, caso do Brasil.

Wu recorre à metáfora de duas “empresas” para ilustrar o momento norte-americano. O “setor público” apresentaria governança fragilizada e endividamento histórico; já o “setor privado”, ancorado na transformação digital, mantém sólido potencial de expansão. Essa dissociação faz com que o capital diferencie cada vez mais os ativos, redirecionando parte dos recursos antes concentrados na dívida soberana para ações e, posteriormente, para bolsas externas.

Antes mesmo da tensão no Oriente Médio, o enfraquecimento do dólar vinha se refletindo na elevação de posições em equities internacionais. A guerra apenas suspendeu esse processo. Com o arrefecimento do conflito, o Itaú projeta retorno progressivo do padrão observado no início do ano.

Conclusão Técnica

A análise do Itaú Unibanco indica que a recuperação do fluxo estrangeiro para a B3 depende, prioritariamente, da resolução do impasse geopolítico entre Estados Unidos e Irã. Superado esse obstáculo, os fatores de suporte já identificados — participação do Brasil na cadeia global de insumos para computação de alta performance, expectativa de desvalorização do dólar e menor atratividade relativa dos Treasuries — tendem a prevalecer. O banco monitora a evolução das negociações diplomáticas e a trajetória dos rendimentos norte-americanos como principais vetores para estimar o momento exato de retomada das entradas líquidas. Enquanto isso, empresas ligadas a energia e minerais estratégicos permanecem no radar como potenciais beneficiárias da próxima onda de alocação internacional.