O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que desconhecia as suspeitas contra o banqueiro Daniel Vorcaro quando buscou, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, recursos estimados em R$ 61 milhões para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista veiculada em 14 de março pela GloboNews, o parlamentar rechaçou qualquer irregularidade no repasse de verbas, negou destinação de valores ao irmão Eduardo Bolsonaro e classificou as acusações como tentativa de “associação indevida”.
Linha do tempo da aproximação entre o senador e o banqueiro
A primeira reunião conhecida entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro foi articulada por um intermediário em 8 de dezembro de 2024, em Brasília. Segundo reportagem do Intercept Brasil, esse encontro inaugurou a negociação para viabilizar o orçamento do longa-metragem.
Na entrevista, o senador destacou que, à época, “não havia acusações públicas” contra Vorcaro. As investigações que culminariam na prisão do banqueiro tornaram-se públicas somente no final de 2025. “No momento em que não se sabia que ele tinha todos esses problemas”, reforçou o parlamentar durante a conversa com os jornalistas.
Entre fevereiro e maio de 2025, ocorreram as transferências financeiras de maior magnitude, somando R$ 61 milhões. As tratativas permaneceram em curso até novembro de 2025, poucas semanas antes da detenção do executivo do setor financeiro.
Fluxo de recursos e atribuições contratuais
Documentos obtidos pelo portal de notícias indicam que parte significativa do montante foi encaminhada a um fundo de investimento sediado no Texas (EUA). O veículo pertence a um advogado especializado em imigração que, segundo o senador, “atua há quase 30 anos” para a família.
Flávio Bolsonaro sustentou que os aportes no fundo texano estavam vinculados exclusivamente à produção do filme. “Todo o dinheiro era integralmente utilizado para fazer o filme”, declarou. Ele refutou qualquer repasse a Eduardo Bolsonaro, deputado federal e um dos idealizadores da cinebiografia: “Não foi para o Eduardo Bolsonaro”.
O parlamentar explicou que a contratação do advogado norte-americano decorreu de exigências contratuais para transações internacionais. “Você tem que contratar um advogado de confiança do Eduardo Bolsonaro”, justificou, frisando que a participação do profissional restringiu-se à estruturação jurídica do fundo estrangeiro.
Investigação sobre Daniel Vorcaro e repercussões políticas
Vorcaro, controlador de instituições financeiras que operam no mercado de crédito, tornou-se alvo de inquérito por suspeita de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro. A prisão preventiva foi decretada em novembro de 2025, após apuração do Ministério Público Federal (MPF).
Com a divulgação das movimentações financeiras ligadas ao filme, adversários políticos passaram a questionar a lisura da arrecadação. Durante o programa televisivo, Flávio Bolsonaro reagiu com irritação a perguntas sobre possível conivência: “Vocês estão tentando me acusar por associação. Não misturem as coisas”, exclamou.
Imagem: Reprodução ND Mais
No Congresso, parlamentares da oposição articulam requerimentos para convocar o senador a prestar esclarecimentos formais na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle. Há, ainda, pedidos para que o Tribunal de Contas da União (TCU) examine a origem dos recursos externos aplicados no projeto cinematográfico.
Aspectos jurídicos do financiamento audiovisual
No Brasil, produções de grande porte frequentemente recorrem a aportes internacionais para completar o orçamento. As operações precisam respeitar a legislação cambial do Banco Central e as regras de investimento estrangeiro no setor audiovisual estabelecidas pela Agência Nacional do Cinema (Ancine).
Especialistas consultados pelas reportagens afirmam que, mesmo quando os recursos se originam de fontes privadas, cabe ao produtor comprovar procedência lícita e aderir a mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro. Caso irregularidades sejam detectadas, tanto os financiadores quanto os responsáveis pelo projeto podem responder por coautoria ou conivência, a depender das provas reunidas.
Nesse contexto, a estratégia de Flávio Bolsonaro tem sido ressaltar a inexistência de indícios de crime no momento da captação e a destinação direta das verbas à realização do filme.
Conclusão Técnica
Até o momento, as investigações sobre Daniel Vorcaro não resultaram em acusações formais contra Flávio Bolsonaro ou integrantes da equipe de produção de “Dark Horse”. Contudo, a permanência de inquéritos abertos pelo MPF e a iminente análise de contratos pelo TCU mantêm o caso em desenvolvimento. Os próximos passos incluem:
- Análise do fluxo de capitais internacionais associados ao fundo no Texas.
- Possíveis oitivas do senador em comissões parlamentares e audiências judiciais.
- Eventual revisão dos mecanismos de “due diligence” adotados por produções audiovisuais que captam recursos no exterior.
Enquanto não forem concluídos os procedimentos de auditoria financeira, permanece incerta a data de retomada das filmagens de “Dark Horse” e a liberação definitiva dos valores bloqueados pela Justiça.



