Introdução (Lead):
Gestores das casas Kapitalo, Avenue e Monte Bravo defenderam nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, uma estratégia de investimento focada em ativos defensivos – exportadoras de commodities, ouro, títulos públicos indexados à inflação (Tesouro IPCA+) e exposição ao dólar – para enfrentar a combinação de juros globais em alta, fortalecimento da moeda norte-americana e incertezas político-econômicas ligadas à eleição presidencial no Brasil e a conflitos geopolíticos.
Cenário global redefine estratégias de risco
A invasão do Irã ao território do Iraque, iniciada em abril, interrompeu a expectativa de queda sincronizada dos juros mundiais em 2026. Segundo Bruno Mauad (Kapitalo), o choque elevou prêmios de risco, sustentou a cotação do dólar e redirecionou fluxo de capitais para os Estados Unidos. A referência imediata é o rendimento do Treasury de 10 anos, que subiu de 3,8 % em janeiro para 4,4 % em junho. No Brasil, a taxa do contrato futuro de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro 2028 retornou ao patamar de 11,9 % ao ano.
Diante desse quadro, as gestoras avaliam que o Ibovespa mantém atratividade pontual, porém o foco recai sobre segmentos com receita em moeda forte e menor correlação com o ciclo doméstico de crédito.
Ações brasileiras: commodities lideram a parcela variável
Mauad indicou que exportadoras de commodities concentram a maior fatia da carteira da Kapitalo. Entre os destaques aparecem:
- Usiminas (USIM5) – baixo endividamento e alavancagem à demanda por aço;
- Vale (VALE3) – diversificação em cobre e metais essenciais à infraestrutura de data centers;
- Aura Minerals (AURA33) – exposição direta ao ouro, considerado “ativo de cinco mil anos” para reserva de valor.
A cotação média do minério de ferro em Qingdao se mantém acima de US$ 110 por tonelada, enquanto o barril de petróleo Brent opera próximo de US$ 92. Para Mauad, a combinação de oferta limitada e demanda constante deve preservar margens das produtoras no curto prazo.
Embora o setor de consumo esteja em peso reduzido, a casa monitora Lojas Renner (LREN3) e Natura (NATU3) como oportunidades táticas caso o ambiente de juros domésticos melhore após as eleições.
Renda fixa indexada à inflação ganha protagonismo
Com a taxa real do Tesouro IPCA+ na faixa de 8 % ao ano – nível considerado histórico por Pier Mattei (Monte Bravo) – os gestores enxergam o título como “dupla função”: preservação do poder de compra no pior cenário fiscal e potencial de valorização de 20 % a 25 % se um governo comprometido com ajuste das contas públicas promover queda dos juros.
Imagem: Internet
Mesmo diante do retorno nominal de 14,5 % em aplicações pós-fixadas de curto prazo, Mattei sustenta que a NTN-B alongada proporciona melhor relação risco-retorno para proteger portfólios de choques inflacionários.
Dólar, Wall Street e Treasurys completam a defesa
Daniel Haddad (Avenue) relembrou a desvalorização do real entre 2014 e 2015, quando a taxa de câmbio saltou de R$ 2,2 para R$ 4,2. Para evitar nova perda de poder de compra internacional, o executivo sugere alocação estrutural de 20 % a 30 % do patrimônio em dólar, ajustando o risco por meio da escolha dos ativos – ações ou títulos.
Na renda variável externa, a preferência consensual recai sobre índices amplos, como S&P 500 e Nasdaq-100, acessados via ETFs. O argumento é o elevado fluxo de capital impulsionado por rodadas de IPOs bilionários, incluindo SpaceX, OpenAI e Anthropic. Para exposição a renda fixa, os Treasurys de 10 a 30 anos oferecem aproximadamente 2 % de retorno real, valor considerado atrativo quando ponderados a solidez da moeda e o perfil investment grade.
Conclusão Técnica
A reconfiguração do cenário macro – juros globais mais altos, dólar fortalecido e tensão geopolítica persistente – reforça a busca por ativos com fluxo em moeda forte, proteção inflacionária e capacidade de preservação patrimonial. As indicações dos gestores convergem para três frentes: ações de exportadoras ligadas a commodities resilientes, títulos públicos indexados ao IPCA e posição estrutural em dólar, complementada por bolsa e renda fixa norte-americanas. A efetividade da estratégia será testada nos próximos trimestres, especialmente à medida que o resultado das urnas no Brasil e a trajetória dos bancos centrais definirem o rumo dos prêmios de risco globais.



