Guerra no Oriente Médio encarece querosene e provoca onda global de cancelamentos de voos

Companhias aéreas de diferentes continentes enfrentam cortes operacionais, tarifas mais altas e incerteza no abastecimento de combustível desde o fim de fevereiro, quando o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã elevou o risco de bloqueio no Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde transitam 20% do petróleo mundial.

Escalada geopolítica pressiona abastecimento de querosene

O Estreito de Ormuz é responsável por aproximadamente 30% do combustível de aviação usado pela Europa. Segundo a consultoria Cirium, o Oriente Médio forneceu 58% do querosene importado pelo continente em 2025. Qualquer restrição logística nessa rota afeta diretamente os estoques das refinarias europeias.

Desde o ataque inicial em 28 de fevereiro de 2026, o barril do petróleo Brent avançou para US$ 107, enquanto a IATA aponta que o preço médio do combustível de aviação mais do que dobrou no mesmo intervalo. A alta do insumo representa o maior componente de custo na formação das tarifas aéreas.

Reação imediata das companhias aéreas

Diante da perspectiva de escassez de QAV e custos inflacionados, empresas europeias anunciaram ajustes significativos:

  • Lufthansa removeu 20 mil voos de curta distância entre maio e outubro, medida que visa economizar 40 mil toneladas métricas de combustível.
  • SAS cancelou quase 1 200 voos apenas em maio, conforme o Copenhagen Post.
  • KLM suprimiu 80 operações de ida e volta a partir de Amsterdã e manteve suspensas rotas para Dubai, Riad e Dammam até 28 de junho.
  • O International Airlines Group declarou intenção de “adequar tarifas e capacidade” para mitigar o aumento de custos, mas não sinalizou risco imediato de falta de combustível.
  • A low-cost Ryanair afirmou ter estoque contratado até o fim de maio, porém projetou encarecimento dos bilhetes após o verão.

No conjunto, a Cirium contabilizou 13 mil voos cancelados em todo o mundo em maio, equivalentes a cerca de 2 milhões de assentos — 2% da oferta global.

Expansão do problema para Ásia e Américas

Na Ásia, o impacto logístico foi classificado pelo jornal The Times como “ainda mais intenso”. Exemplos incluem:

  • AirAsia e Vietnam Airlines reduziram entre 10% e 15% de suas decolagens programadas em maio.
  • Cathay Pacific, de Hong Kong, passou a aplicar sobretaxa de combustível que chega a R$ 1 000 em percursos intercontinentais.

No Brasil, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) relatou elevação de 19,4% no preço médio das passagens em março ante o mesmo mês de 2025. A Petrobras reajustou o valor do QAV em 18% a partir de 1º de maio, acumulando alta de 55% em abril e outro 18% em março. Em nota, a Abear alertou para “impactos gravíssimos na conectividade do país” diante de custos que dobraram em relação ao período anterior à crise.

Reflexos para o consumidor e perspectivas de curto prazo

O encarecimento do combustível de aviação se traduz em dois efeitos diretos para o viajante:

  1. Menor oferta de assentos: cortes de malha reduzem a disponibilidade, pressionando a taxa de ocupação.
  2. Bilhetes mais caros: companhias repassam parte do custo extra por meio de tarifas dinâmicas ou sobretaxas.

Para o verão europeu, a combinação de demanda sazonal elevada com menor oferta tende a acentuar a inflação tarifária. Operadores de turismo já incorporam cenários de volatilidade cambial e de preços de combustível em pacotes para julho e agosto.

Conclusão Técnica

A manutenção de tensões no Oriente Médio mantém elevado o risco de interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, sustentando o preço do QAV em patamar historicamente alto. Companhias aéreas adotam estratégia dupla: cortes preventivos de capacidade e reajustes tarifários graduais. Caso a rota marítima permaneça parcialmente bloqueada, novas reduções de voos podem ocorrer a partir de setembro, período em que os estoques estratégicos na Europa e na Ásia começam a necessitar de recomposição. No Brasil, a dependência da política de preços da Petrobras continuará determinante para o custo de viagens domésticas e internacionais, com os indicadores de tarifa aérea sujeitos a variação acima da inflação geral até estabilização do mercado de petróleo.