Howard Marks enfatiza preparação em vez de previsão nos mercados: lições de um gestor de US$ 223 bilhões

“Você não consegue prever; você consegue se preparar.” A máxima de Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital Management, reforça a necessidade de planejamento cuidadoso em um cenário financeiro caracterizado pela incerteza estrutural.

O investidor por trás da frase e o contexto de mercado

US$ 223 bilhões em ativos sob gestão posicionam Marks entre os nomes mais influentes da indústria de investimentos alternativos. Fundada em 1995, a Oaktree ganhou reputação ao focar em créditos estressados e dívidas corporativas, áreas onde a volatilidade é elevada e a assimetria de informação favorece quem está preparado para eventos inesperados. Em relatórios recentes, o gestor salientou que, mesmo com modelos estatísticos avançados, choques macroeconômicos — como mudanças súbitas de política monetária ou eventos geopolíticos — permanecem fora do alcance de previsões exatas. Essa constatação sustenta seu argumento de que a robustez de uma carteira vale mais do que qualquer tentativa de acertar o “timing” de mercado.

Estratégias de preparação: do controle de risco à liquidez tática

Segundo memorandos divulgados pela própria Oaktree, a preparação operacional se materializa em três frentes principais:

1. Diversificação disciplinada – Alocação entre classes de ativos descorrelacionadas permite diluir riscos específicos e suavizar variações extremas de capital. A prática inclui desde crédito high yield até infraestrutura e ativos reais, combinados de forma a reduzir dependência de ciclos econômicos singulares.

2. Gestão de riscos baseada em cenários – Equipes internas simulam impactos de recessões técnicas, expansões inflacionárias e rupturas regulatórias. Cada cenário recebe faixas de probabilidade e parâmetros de perda máxima aceitável, orientando limites de exposição em tempo real.

3. Reserva de liquidez – Manter caixa e instrumentos líquidos em níveis superiores à média do setor dá margem para comprar ativos descontados quando episódios de estresse forçam vendas generalizadas. O objetivo é transformar volatilidade em oportunidade, movimento descrito por Marks como “segurança ofensiva”.

Aplicação do conceito a investidores institucionais e individuais

Para fundos de pensão, seguradoras e wealth offices, a recomendação implica revisitar políticas de investimento. Ao substituir metas rígidas de retorno anual por bandas de risco ajustáveis, os comitês conseguem reagir mais rápido a mudanças de cenário sem descumprir mandatos atuariais. Já para o público pessoa física, a preparação traduz-se em:

Diversificação geográfica – Exposição a mercados globais mitiga choques específicos do ambiente doméstico, como flutuações cambiais ou incertezas fiscais.

Consistência de aportes – Contribuições periódicas, em vez de aportes concentrados, reduzem o impacto de picos de volatilidade sobre o preço médio dos ativos.

Disciplina comportamental – Adoção de regras pré-definidas para rebalanceamento evita decisões impulsivas motivadas por pânico ou euforia, fatores que, segundo pesquisas da Behavioral Finance, respondem por perda anual média de até dois pontos percentuais em performance.

Relevância da frase no atual ciclo econômico

A economia global atravessa um período de alta simultânea de juros nos principais bancos centrais, desaceleração da atividade na zona do euro e tensões no comércio internacional. Nesse ambiente, previsões macroeconômicas apresentam margens de erro ampliadas. Análises do FMI indicam que, em ciclos anteriores, a dispersão das estimativas de PIB para o ano subsequente chegou a 2,4 p.p. O histórico reforça a tese de Marks: melhor do que gastar recursos na tentativa de antecipar pontos de inflexão é alocar capital de forma resiliente.

Conclusão Técnica

A declaração de Howard Marks consolida a visão de que a imprevisibilidade é inerente aos mercados. Diante dessa realidade, o conjunto de práticas descrito — diversificação, simulação de cenários e gestão avançada de liquidez — forma a base de um posicionamento estratégico capaz de resistir a choques exógenos. Nos próximos trimestres, com projeções de crescimento global revisadas para baixo e volatilidade cambial em alta, a tendência é de que investidores que privilegiam preparação em vez de previsão atravessem o ciclo com menor dispersão de retornos e maior capacidade de captura de oportunidades.