O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em 23 de maio de 2026 que o Brasil priorizará acordos internacionais que incluam transferência de tecnologia, destacando que o país “não tem preferência por nenhum parceiro” desde que haja compartilhamento de conhecimento. A declaração ocorreu durante a inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e foi acompanhada de críticas ao debate restrito ao custo imediato dos investimentos públicos, sob o argumento de que o preço de não investir pode ser maior.
Nova sede do CDTS reforça capacidade científica brasileira
O CDTS, estrutura vinculada à Fundação Oswaldo Cruz, recebeu aporte de aproximadamente R$ 220 milhões para modernização de laboratórios, aquisição de equipamentos de bioinformática e ampliação de linhas de pesquisa em vacinas, fármacos e diagnósticos. Segundo o discurso presidencial, o complexo “insere o Brasil em rota de competição global em áreas estratégicas da saúde”, consolidando a instituição como uma das maiores plataformas de pesquisa translacional da América Latina. Ainda de acordo com o Palácio do Planalto, a previsão é criar até 1,4 mil empregos diretos em atividades científicas e de apoio até 2028.
O evento reuniu ministros, parlamentares e representantes da comunidade científica. Para o presidente da Fiocruz, Mário Moreira, a nova infraestrutura “diminui o intervalo entre a bancada e o paciente” ao acelerar a validação de medicamentos de alto impacto social. O Ministério da Saúde estima que o CDTS permitirá economizar R$ 600 milhões anuais com importação de insumos, dado que parte da produção será internalizada.
Transferência de tecnologia pauta relações exteriores
Durante a cerimônia, Lula reiterou que o Brasil pretende negociar com “quem esteja disposto a compartilhar conhecimento”, observação que ecoou encontro com o presidente Donald Trump, ocorrido em 9 de maio em Washington. Na ocasião, o governo brasileiro apresentou lista de projetos nos setores de semicondutores, terras raras e biotecnologia que dependem de cooperação técnico-científica para avançar. O chefe do Executivo brasileiro relatou ter “deixado claro” que parcerias devem incluir cláusulas de co-desenvolvimento e formação de recursos humanos.
Lula também citou conversas recentes com representantes da União Europeia e da China, enfatizando que “não há alinhamento automático” e que cada proposta será analisada pela capacidade de gerar propriedade intelectual compartilhada. Especialistas em comércio exterior lembram que, segundo dados da Unctad, cerca de 70 % das exportações brasileiras de alta tecnologia dependem hoje de insumos importados, o que reforça a necessidade de estreitar parcerias orientadas à inovação.
Investimento público e custo da inação no centro do debate econômico
Em sua fala, o presidente questionou o argumento recorrente de que projetos de infraestrutura e ciência são “caros”, comparando o dispêndio imediato com o retorno socioeconômico no longo prazo. Ele citou como exemplo obras de mobilidade e expansão da rede ferroviária, apontando que cada R$ 1 bilhão investido em logística aumenta em média 0,4 ponto percentual o PIB regional, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para Lula, “o desafio é mensurar quanto custa não fazer” e deixar de capturar ganhos futuros de produtividade.
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A declaração ocorre em meio à pressão da equipe econômica para cumprir a meta de déficit primário zero em 2027. O ministro da Fazenda, que tradicionalmente defende maior rigor orçamentário, foi lembrado pelo presidente: “o ministro da Fazenda em qualquer país do mundo está lá para evitar que a gente gaste”, mas projetos aptos a ampliar infraestrutura e conhecimento devem ser tratados como investimentos estratégicos, concluiu.
Analistas do mercado financeiro observam que a ênfase em tecnologia pode melhorar a nota de inovação do Brasil em índices internacionais. O relatório mais recente do Global Innovation Index posiciona o país na 57ª colocação entre 132 economias, indicando espaço para avanços caso o governo consiga articular políticas de longo prazo e parcerias de risco compartilhado.
Conclusão Técnica
A defesa de transferência de tecnologia como critério central de parcerias estrangeiras indica mudança na diplomacia econômica brasileira, privilegiando acordos que resultem em produção de conhecimento local e redução de dependências. A inauguração da nova sede do CDTS materializa essa estratégia, oferecendo infraestrutura capaz de acelerar inovação e atrair cooperação internacional. Nos próximos meses, o governo deve submeter ao Congresso um pacote de estímulos fiscais direcionado a pesquisa e desenvolvimento, enquanto negocia com Estados Unidos, União Europeia e China cláusulas de co-desenvolvimento em projetos de semicondutores, saúde e energia limpa. A efetividade dessas ações dependerá da capacidade de equilibrar disciplina fiscal com a necessidade de investimentos de longo prazo que posicionem o Brasil entre as economias produtoras de tecnologia de ponta.



