Maternidade impulsiona transição de executivas ao empreendedorismo e fortalece educação privada no Brasil

Keiti de Barros Munari decidiu, aos 50 anos, abandonar uma trajetória de sucesso na construção civil para criar a EdukkA Mais, rede que hoje administra nove unidades de ensino superior e atende cerca de 3.500 alunos; a escolha reflete um movimento nacional em que a maternidade leva 77 % das mulheres brasileiras a reverem suas carreiras, segundo pesquisa da Rede Mulher Empreendedora (RME).

Da construção civil ao comando de uma rede universitária

Formada em Engenharia Civil e com décadas de atuação em cargos de liderança, Keiti Munari percebeu que a rotina de reuniões, viagens e metas corporativas a afastava da filha recém-nascida. Em 2019, após avaliar finanças pessoais e oportunidades de mercado, ela deixou o posto executivo para fundar a EdukkA Mais, voltada à oferta de cursos de graduação e pós-graduação em cidades de porte médio.

O plano de negócios priorizou três pilares: aquisição de franquias de universidades reconhecidas, parcerias locais para compartilhamento de infraestrutura e modelo híbrido de aulas. Menos de cinco anos depois, a rede soma nove polos espalhados por Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, registra taxa anual de crescimento de 35 % e emprega 120 profissionais, entre docentes e equipe administrativa.

O caso chama a atenção por demonstrar que a busca por flexibilidade de horário e presença familiar pode coexistir com negócios de alto faturamento. Apesar de não divulgar resultados detalhados, a fundadora confirma que o grupo opera margem líquida superior à média do setor educacional privado, atualmente em torno de 18 % segundo dados da Hoper Educação.

Perfil demográfico do empreendedorismo materno

A pesquisa da RME, realizada com 2.500 entrevistadas em todas as regiões do país, indica que o nascimento do primeiro filho ou a ampliação da família constitui o principal gatilho de reinvenção profissional para mulheres. Entre os principais achados, destacam-se:

  • 77 % começam a empreender após a maternidade;
  • 65 % se autodeclaram mulheres negras;
  • 50 % pertencem à faixa de baixa renda;
  • 60 % faturam até R$ 2.500 mensais.

O recorte evidencia que a maior parte dessas iniciativas nasce motivada por necessidade financeira e pela ausência de políticas corporativas de apoio, como horários flexíveis ou licença parental ampliada. Além disso, a concentração de renda abaixo de R$ 2.500 mensais revela desafios para escalar operações e conquistar estabilidade.

Casos como o de Keiti Munari e da esteticista Karen Tokuhashi — que deixou a docência universitária para abrir clínica própria — demonstram potencial de crescimento quando combinam experiência prévia, networking consolidado e acesso a crédito dirigido.

Financiamento e capacitação como vetores de sustentabilidade

Para transformar empreendimentos criados por necessidade em negócios resilientes, programas de fomento têm assumido papel crucial. Fundado em 2013, o Itaú Mulher Empreendedora (IME) atua em parceria com a International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial, e já impactou quase 1 milhão de mulheres por meio de linhas de crédito, mentorias e capacitações em gestão financeira.

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Imagem: Itaú

Keiti Munari mantém sete contas empresariais na instituição e credita parte do avanço da EdukkA Mais à orientação recebida sobre fluxo de caixa e planejamento de expansão. Relatórios internos do programa apontam que empreendedoras participantes apresentam, em média, aumento de 22 % no faturamento anual após dois anos de acompanhamento.

Especialistas em microfinanças destacam três fatores-chave para a longevidade desses negócios:

  1. Educação executiva que aproxime conceitos de governança corporativa da realidade de empreendimentos familiares;
  2. Crédito com juros abaixo da taxa média de mercado para investimentos em capital de giro e tecnologia;
  3. Rede de apoio que inclua mentoria, networking setorial e assistência jurídica.

A combinação desses elementos amplia a chance de que empresas fundadas em estágios iniciais da maternidade ultrapassem a marca crítica de cinco anos de operação, momento em que, segundo o Sebrae, 46 % dos micro e pequenos negócios fecham as portas.

Tendências e próximos passos do mercado

Analistas de educação privada avaliam que a procura por modelos mais flexíveis de ensino, catalisada pela pandemia e pela consolidação de plataformas digitais, abre espaço para redes de polos sem campus próprio, como a EdukkA Mais. Estimativas do Instituto Semesp apontam crescimento projetado de 8,5 % ao ano para a modalidade de educação a distância até 2026, o que reforça a decisão estratégica de mulheres que identificam nichos pouco explorados.

No universo de estética e bem-estar, segmento escolhido por Karen Tokuhashi, as oportunidades também avançam: a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos prevê expansão de 5 % ao ano, impulsionada pelo envelhecimento populacional e maior preocupação com saúde preventiva.

Conclusão técnica

O movimento em que mães trocam carreiras tradicionais pelo empreendedorismo ganha tração graças à busca por autonomia, amparo de programas financeiros especializados e amadurecimento de setores como educação a distância e serviços de estética. A trajetória de Keiti Munari confirma que, quando há planejamento, capital e capacitação, negócios criados para equilibrar vida profissional e maternidade podem transcender a subsistência, gerar empregos e contribuir para a economia real. A continuidade dessa tendência dependerá da ampliação de linhas de crédito acessíveis, da adoção de políticas públicas favoráveis à equidade de gênero no trabalho e da consolidação de ecossistemas de mentoria capazes de sustentar o crescimento das empreendedoras nos próximos anos.