Heitor Soratto Nandi, 11 anos, estudante do quinto ano em Criciúma (SC), identificou a falta de proteção das figurinhas da Copa do Mundo entre colegas e, ao desenvolver caixas personalizadas em impressão 3D, consolidou-se como principal fornecedor do produto na escola, realizando vendas diárias antes e após as aulas.
Identificação de demanda e validação instantânea dentro do ambiente escolar
O gatilho empreendedor surgiu quando Heitor percebeu que as figurinhas, guardadas com elásticos nos bolsos dos colegas, acumulavam amassados que desvalorizavam as trocas. A observação, feita em agosto, coincidiu com a aceleração da procura por álbuns da Copa do Mundo no mercado nacional. Dados da Panini indicam que, a cada edição, a venda de pacotes de figurinhas cresce cerca de 10%, reforçando o potencial de consumo entre crianças de 7 a 14 anos.
Ao testar um primeiro lote de cinco caixas, impressas em filamento PLA, Heitor validou a aceitação: as peças se esgotaram em menos de um intervalo de 20 minutos. A resposta orientou a produção em série, hoje estimada em até 15 unidades por semana, ritmo limitado pelo tempo de impressão — aproximadamente 45 minutos por caixa.
Processo produtivo: da modelagem CAD ao produto final personalizado
A operação utiliza uma impressora 3D de mesa modelo Ender-3, equipamento doméstico com volume útil de 22 × 22 × 25 cm. Para criar os moldes, Heitor recorre a softwares open source de modelagem CAD, onde ajusta dimensões, insere slots internos para até 60 figurinas e grava nomes ou números de camisa solicitados pelos compradores.
Cada unidade consome, em média, 35 gramas de filamento e 0,12 kWh de energia. Com base no preço médio do PLA (R$ 110 por quilo) e da tarifa residencial em Santa Catarina (R$ 0,73/kWh), o custo direto fica em torno de R$ 5,10 por caixa. O preço de venda adotado pelo estudante varia de R$ 15 nas versões básicas a R$ 25 nas personalizadas, garantindo margem bruta entre 66% e 80%.
As transações ocorrem em dinheiro ou via PIX, solução que reduz a necessidade de troco e agiliza a fila de compradores, formada principalmente no pátio da escola. Para organizar pedidos, Heitor criou um formulário impresso com campos de cor, nome e número preferido, reduzindo erros de especificação que poderiam gerar retrabalho.
Ambiente familiar como catalisador de habilidades de gestão e reinvestimento
O ecossistema doméstico exerce influência direta na iniciativa. A mãe, Sheila Soratto, cirurgiã-dentista, introduziu noções de controle financeiro, enquanto o pai, Ítalo Nandi, com experiência nos setores metalúrgico e madeireiro, forneceu insumos sobre fluxo de produção. O menino participa de reuniões familiares onde são discutidas margens, prazos e reinvestimentos, prática que reforça a visão de negócio de longo prazo.
Imagem: Divulgação
Atualmente, 30% da receita líquida é reinvestida na compra de novos rolos de filamento de cores sazonais — verde e amarelo tiveram pico de demanda com o início do torneio mundial. Outros 20% são direcionados a testes de protótipos, como suportes para fidget toys e minicraques, produtos candidatos a lançamento pós-Copa. O restante é depositado em conta poupança vinculada ao CPF de Heitor, prática supervisionada pelos responsáveis.
Expansão de mercado e aprendizado interdisciplinar
Com a visibilidade alcançada, o estudante foi convidado pela coordenação pedagógica a apresentar o projeto em aula de matemática, onde demonstrou cálculo de porcentagem, custo unitário e lucro. A atividade integrou conteúdos de empreendedorismo previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Ensino Fundamental.
Do ponto de vista de mercado, o limite geográfico da escola já se mostra estreito. Colecionadores de outras turmas e até de instituições vizinhas solicitaram entregas, levantando a possibilidade de vendas por encomenda via redes sociais. Contudo, restrições de idade às plataformas e a necessidade de gestão logística sugerem parceria futura com responsáveis legais.
Conclusão técnica
A criação das caixas de figurinhas por Heitor Soratto Nandi demonstra convergência de oportunidade pontual—o campeonato mundial de futebol—com tecnologias acessíveis de hardware doméstico. A operação evidencia viabilidade econômica, margem elevada e potencial didático, alinhando-se a diretrizes de estímulo ao protagonismo juvenil. Nos próximos meses, a continuidade do negócio dependerá da sustentação da demanda após o encerramento da Copa e da capacidade de diversificação do portfólio de impressos 3D, fatores que definirão o ritmo de reinvestimento e a escalabilidade da microempresa escolar.



