Documentos internos do Banco Master indicam que Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, coordenou manobras financeiras para esconder um desfalque de R$ 776,9 milhões, direcionado a fundos e empresas da própria família pouco antes da liquidação do banco. A operação, executada entre 2022 e 2025, teria financiado bens de luxo como mansões no exterior e aeronaves particulares, ao mesmo tempo em que dificultava o rastreamento do patrimônio pelas autoridades.
Origem dos recursos e a criação do Fundo City
As apurações da liquidante do Banco Master e da Polícia Federal apontam que o esquema começou em 2022, quando o Fundo de Investimento City, vinculado ao banco, antecipou R$ 419,9 milhões em recebíveis a empresas controladas pela família Vorcaro. Segundo relatórios obtidos pela investigação, esses títulos eram considerados “podres” por não possuírem lastro ou perspectiva de pagamento.
Em contrapartida, o Banco Master registrava os créditos como ativos de pleno valor, mantendo a contabilidade positiva diante de investidores e reguladores. A prática elevou artificialmente o balanço do fundo, mascarando a real exposição ao risco e postergando a identificação do déficit financeiro.
Venda das dívidas e o papel da Navarra S.A.
Com a iminente divulgação das perdas, uma segunda etapa foi deflagrada em julho de 2025. O Fundo City vendeu o pacote de dívidas para a Navarra S.A. por R$ 776,9 milhões. Investigações subsequentes demonstraram que a Navarra era controlada indiretamente por Daniel Vorcaro mediante o Fundo Astralo 95, configurando uma operação entre partes relacionadas.
Após a transferência, o valor das cotas do Fundo City despencou 99,98 %, reduzindo quase a zero o investimento de terceiros. Internamente, contudo, os passivos permaneciam no mesmo grupo econômico, o que teria permitido ao ex-banqueiro reorganizar recursos e afastar credores do patrimônio efetivo.
Bens de luxo, suspeita de propina e núcleo de intimidação
Relatórios da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal (STF) detalham que parte do montante desviado foi aplicada na aquisição de:
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- Mansão em Windermere, Flórida, estimada em R$ 36 milhões;
- Aeronave particular avaliada em R$ 538 milhões;
- Imóvel de alto padrão em Brasília, financiado pelo Fundo Astralo.
Há indícios adicionais de pagamentos ilícitos a fiscais do Banco Central para inibir inspeções regulares. Outro braço da operação, conhecido como A Turma, teria formado uma milícia privada responsável por atos de violência contra jornalistas que investigavam as irregularidades.
Medidas judiciais e bloqueio de bens
Em ações civis promovidas pela liquidante, o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro, e a irmã, Natália Vorcaro, tiveram patrimônio bloqueado como forma de assegurar a restituição de credores. O objetivo é impedir o esvaziamento de ativos até a conclusão dos processos e a apuração definitiva das responsabilidades.
A defesa de Henrique e Natália declarou, em nota, que “as suspeitas representam distorções da realidade” e que “os negócios realizados trouxeram lucro à instituição”. Os advogados acrescentaram que a família desconhece a existência dos fundos citados e apresentará explicações ao Poder Judiciário. Já a defesa de Daniel Vorcaro preferiu não comentar as acusações.
Conclusão técnica
O caso avança em múltiplas frentes investigativas no âmbito da Polícia Federal, do STF e da liquidação extrajudicial do Banco Master. As autoridades concentram-se em rastrear a origem e o destino dos R$ 776,9 milhões, identificar beneficiários diretos e mensurar o prejuízo a investidores e credores. Paralelamente, decisões judiciais de bloqueio patrimonial buscam preservar ativos passíveis de ressarcimento. Os próximos passos incluem perícia contábil aprofundada, eventual denúncia criminal do Ministério Público e possível ampliação de cooperação internacional para alcançar bens no exterior.


