O ouro assumiu a maior fatia das reservas internacionais no fim de 2025, respondendo por 27% do total — ante 22% dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (Treasurys) — após uma escalada acumulada de 60% no ano e de 30% em 2024, de acordo com relatório divulgado pelo Banco Central Europeu (BCE).
Fatores que impulsionaram a valorização do metal
O BCE atribui a mudança de posição sobretudo à valorização expressiva do preço do ouro, e não a uma compra massiva por parte dos bancos centrais. Entre janeiro e dezembro de 2025, a cotação avançou de cerca de US$ 2.800 para US$ 4.480 por onça-troy, marcando o maior ganho anual em quatro décadas. No acumulado de dois anos, o metal registrou alta de mais de 100%.
Embora o ritmo de compras oficiais tenha caído de pouco mais de 1.000 toneladas ao ano para 850 toneladas, o apetite institucional permaneceu significativo. Segundo a pesquisa, China, Índia, Turquia e Qatar destacaram-se entre os maiores compradores líquidos, reforçando a demanda vinda de economias emergentes que buscam diversificar a exposição ao dólar.
Além do movimento dos bancos centrais, três vetores de mercado contribuíram para a reprecificação rápida:
- Inflação resiliente nos principais polos econômicos, que elevou o interesse por ativos reales.
- Tensões geopolíticas no Oriente Médio, intensificadas a partir do segundo trimestre de 2025, que aumentaram a busca por proteção.
- Expectativa de política monetária restritiva nos EUA, com elevação dos rendimentos dos Treasurys para patamares próximos a 5,3% ao ano, o que encareceu o custo de carregamento dos títulos e diminuiu sua atratividade relativa.
Impacto nas carteiras oficiais e limitações do ouro como reserva
Ao registrar participação de 27% nas reservas globais, o ouro se descolou da média histórica de 15% a 20% observada desde o início dos anos 2000. Contudo, o relatório do BCE ressalta que o metal não remunera e apresenta alto nível de volatilidade — características que diferem dos títulos públicos, os quais oferecem cupom periódico e mercado secundário profundo.
Essas limitações ficaram evidentes nos primeiros meses de 2026, quando a cotação recuou brevemente para a faixa de US$ 4.250, pressionada pela previsão de petróleo a US$ 100 e pela consequente perspectiva de inflação maior. A consultoria TD Securities projeta que, caso essas variáveis se confirmem, o metal pode oscilar entre US$ 4.000 e US$ 4.200 por onça-troy.
Apesar disso, a manutenção do ouro em níveis elevados sinaliza que as autoridades monetárias continuam enxergando valor estratégico no ativo como diversificação cambial e proteção contra choques sistêmicos. A combinação de liquidez global farta e maior incerteza geopolítica sustenta a tese de que o metal seguirá compondo um pilar relevante das reservas.
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Dinâmica recente de mercado e perspectivas de curto prazo
Em 2 de junho de 2026, os contratos futuros de ouro para agosto encerraram em US$ 4.519,9 por onça-troy na Comex/Nymex, alta diária de 0,30%. A prata para julho avançou 0,40%, fechando a US$ 75,556. O desempenho reflete relatos contraditórios sobre a retomada de diálogo entre Estados Unidos e Irã, enquanto prosseguem incidentes entre Israel e Líbano. Esses eventos mantêm o prêmio de risco embutido nos metais preciosos.
No fronte macroeconômico, analistas monitoram a trajetória dos yields dos Treasurys, que continuam pressionados por expectativas de inflação. Caso as taxas ultrapassem o patamar de 5,5%, parte dos fundos soberanos pode reavaliar a exposição ao ouro, dada a maior atratividade dos retornos pagos pelos títulos americanos.
Entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que uma correção abrupta no preço do metal geraria impacto contábil, mas não comprometeria a solvência dos bancos centrais, pois a alocação em ouro permanece, na maioria dos casos, financiada por reservas excedentes e não por passivos de curto prazo.
Conclusão técnica
O reposicionamento do ouro à frente dos Treasurys nas reservas mundiais deriva principalmente da forte valorização do metal entre 2024 e 2025. Embora a compra líquida de bancos centrais tenha desacelerado, a demanda estrutural por diversificação e cobertura cambial sustentou o movimento. Para 2026, o BCE destaca que volatilidade elevada, ausência de rendimento e obstáculos de liquidez limitam o papel do ouro como instrumento único de reserva. A tendência de curto prazo dependerá da trajetória dos rendimentos dos títulos americanos, do nível dos preços de energia e da evolução de tensões geopolíticas, fatores que continuarão a balizar o equilíbrio entre metais preciosos e ativos de renda fixa soberana nas carteiras oficiais.



