Raízen entra na reta final da reestruturação e credores podem ficar com até 80% do capital

Com uma dívida próxima de R$ 65 bilhões, a Raízen negocia a conversão de 45% desse passivo em ações, cenário que pode transferir quase 80% do controle aos credores já no primeiro semestre de 2027.

Negociação acelera para cumprir o prazo de 90 dias da recuperação extrajudicial

Protocolado em 11 de março de 2026, o pedido de recuperação extrajudicial concedeu à Raízen (RAIZ4) um período de blindagem de 90 dias para renegociar obrigações financeiras fora do Judiciário. Esse intervalo termina no início de junho, data-limite que pressiona todos os envolvidos a concluir um acordo antes da homologação judicial.

Segundo fontes citadas por veículos especializados, a proposta sobre a mesa prevê:

  • Conversão de 45% da dívida bruta — equivalente a aproximadamente R$ 29 bilhões — em ações ordinárias;
  • Aporte de R$ 3,5 bilhões pela Shell como capital novo;
  • Injeção adicional de até R$ 500 milhões prometida por Rubens Ometto, co-controlador da companhia;
  • Criação de um cargo de Chief Restructuring Officer (CRO) para conduzir a execução do plano;
  • Formação de um novo conselho de administração no 1º trimestre de 2027.

Se aprovado, o desenho societário reduz drasticamente a participação dos atuais acionistas, mas preserva a continuidade operacional, considerada essencial para evitar o caminho mais custoso de uma recuperação judicial tradicional.

Cenário alternativo projeta participação credora superior a 90%

Frente à deterioração das métricas financeiras — a dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões para R$ 55,3 bilhões em 12 meses e a alavancagem subiu de 3,0x para 5,3x Ebitda —, parte dos bondholders defende medidas mais profundas.

Consultorias contratadas por grupos que detêm cerca de R$ 14 bilhões em títulos emitidos no exterior sugeriram:

  1. Conversão de até 60% da dívida total, elevando a parcela acionária dos credores para 90% ou mais;
  2. Aporte mínimo de R$ 8 bilhões pelos acionistas originais, valor superior aos R$ 4 bilhões combinados hoje entre Shell e Ometto;
  3. Saída integral de Rubens Ometto da presidência do conselho, condição vista como necessária para destravar a governança.

Em paralelo, grandes bancos credores reforçaram a pressão por mudanças estatutárias que limitem interferências dos controladores históricos e garantam paridade de voto à nova base acionária. O temor é que a manutenção do modelo atual fragilize futuras captações de capital e alongamentos de dívida.

Separação de ativos e venda de unidades seguem no radar para reduzir alavancagem

Além das alterações patrimoniais, o plano em discussão contempla a cisão da Raízen em duas empresas distintas:

Raízen Bioenergia — dedicada à produção de etanol, açúcar e bioenergia;
Raízen Combustíveis — focada na distribuição e varejo de derivados.

A iniciativa permitiria:

  • Captar investidores estratégicos para cada vertical, potencializando sinergias específicas;
  • Melhorar a transparência dos resultados operacionais individualizados;
  • Otimizar a estrutura de capital, separando fluxos de caixa de risco distinto.

Paralelamente, a companhia mantém a política de desinvestimentos lançada em 2024, que já gerou cerca de US$ 5 bilhões com a venda de usinas e ativos considerados não estratégicos. A gestão de Nelson Gomes, CEO desde então, sinaliza que negociações adicionais podem ocorrer ao longo da safra 2026/2027 para reforçar a posição de caixa.

Conclusão técnica

A Raízen aproxima-se de um ponto crítico: sem acordo até o fim do prazo de proteção, aumenta o risco de uma recuperação judicial convencional, alternativa vista como a menos eficiente por credores e acionistas. O debate atual gira em torno do percentual de conversão de dívida, do tamanho do aporte de capital e da futura composição do conselho de administração. Com as tratativas avançando e a Shell comprometida a aportar recursos, a tendência é que um consenso seja formalizado antes da homologação judicial em junho. Caso isso ocorra, os credores poderão assumir participação majoritária, enquanto a companhia ganha fôlego para executar a cisão de operações e prosseguir com a venda de ativos, etapas consideradas essenciais para estabilizar o balanço ao longo de 2027.