Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, alta de 24,3% em relação a 2024, segundo o Monitor de Recuperação Judicial da RGF Consultoria; a escalada, impulsionada por juros elevados, crédito restrito e inflação resiliente, indica risco sistêmico para a atividade produtiva.
Evolução histórica e perfil das empresas afetadas
O levantamento da RGF Consultoria confirma o maior número desde o início da série histórica, em 2010. Em apenas doze meses, 1.112 novas companhias recorreram ao Judiciário para renegociar dívidas e preservar operações. Pequenas e médias empresas compuseram 68% dos pedidos, com destaque para os ramos de varejo (23%), serviços (19%) e construção civil (15%). Já no segmento de grande porte, que responde por 10% dos processos, predominam indústrias de transformação e grupos do agronegócio com cadeias de fornecedores amplas e endividamento em moeda estrangeira.
Entre 2020 e 2023, o país registrava média anual de 3.950 casos. A curva começou a subir com intensidade em 2024, quando somou 4.568 solicitações, mas ganhou tração no ano seguinte. Para analistas da Fundação Dom Cabral, o volume atual revela esgotamento de instrumentos informais de renegociação, antes adotados por bancos e credores privados, além de demonstração de que boa parte dos programas emergenciais de crédito perdeu alcance após a pandemia.
Condições macroeconômicas e pressão financeira
A taxa Selic permaneceu, em média, em 12,75% ao ano durante 2025. O patamar, mesmo inferior ao pico de 2023, ainda pressiona o custo do capital de giro, que alcançou 21,3% ao ano para micro e pequenas empresas, de acordo com o Banco Central. Paralelamente, a inflação oficial fechou em 4,4%, muito próxima do teto da meta de 4,5%, fator que limitou cortes mais agressivos nos juros.
No front bancário, o saldo das carteiras destinadas ao setor empresarial encolheu 9% em termos reais, enquanto a inadimplência acima de 90 dias subiu de 2,7% para 3,9%. Esse ambiente restringiu o alongamento de prazos e tornou improvável a captação de recursos no mercado de capitais por companhias sem grau de investimento. Como reflexo, 45% das empresas que ingressaram em recuperação judicial carregavam dívidas superiores a R$ 10 milhões, ante 37% no ano anterior.
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Impactos na geração de empregos, renda e arrecadação
As 5.680 companhias em recuperação concentram, diretamente, aproximadamente 1,2 milhão de vínculos formais. Quando um processo se instala, fornecedores passam a receber com atraso, tributos entram em parcelamentos judiciais e parte do quadro funcional pode ser desligada. Cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam potencial perda de 0,3 ponto percentual no Produto Interno Bruto de 2026, caso o ritmo de pedidos não recue.
A queda na arrecadação também preocupa entes federativos. Estimativas da Secretaria da Receita Federal indicam renúncia temporária de R$ 6,4 bilhões em impostos federais somente em 2025, decorrentes das suspensões de execuções fiscais previstas na Lei nº 11.101/2005. Governos estaduais, por sua vez, reportam atrasos no repasse de ICMS devidos por redes de varejo em reestruturação, afetando a capacidade de investimento público em infraestrutura e serviços essenciais.
Conclusão Técnica
O recorde de recuperações judiciais em 2025 sintetiza a combinação de política monetária restritiva, inflação persistente e encarecimento do crédito, fatores que comprimem margens e fluxo de caixa de empresas de diferentes portes. Especialistas do mercado projetam que a normalização ocorrerá apenas com a convergência da inflação ao centro da meta, permitindo reduções graduais da Selic a partir do segundo semestre de 2026. Até lá, iniciativas de compliance financeiro, programas de renegociação setorial com garantia parcial do Tesouro e avanços na reforma tributária serão decisivos para reverter a escalada de pedidos. O acompanhamento trimestral do monitor da RGF Consultoria servirá como termômetro da resiliência empresarial ante a continuidade de choques macroeconômicos.



