Entre janeiro e abril de 2026, Santa Catarina registrou 22 feminicídios, concentrados sobretudo no Oeste, onde municípios como Chapecó, Passos Maia, Maravilha e Peritiba lideram as estatísticas; na maioria dos casos, os crimes ocorreram após a ruptura do relacionamento e foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros, revelando um ciclo de violência que se repete apesar das ações de segurança pública.
Escalada de ocorrências no primeiro quadrimestre de 2026
O Estado contabilizou 22 mortes de mulheres motivadas por violência de gênero até 29 de abril, número que representa aumento de 57% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram 14 registros. No recorte regional, o Oeste catarinense concentra a maior parte dos casos, com destaque para:
- Chapecó – índice de 2,55 mortes por 100 mil habitantes, o mais alto do Estado;
- Passos Maia, Maravilha e Peritiba – municípios que repetem ocorrências letais em 2026;
A sequência de crimes no intervalo de quatro meses apresenta cronologia que reforça a sensação de insegurança na região:
27 jan. – Ana Dayse Gomes Provensi (Maravilha) | 19 fev. – Carla Denise Ely da Silva (Peritiba) | 06 abr. – Claudete Ramos (Chapecó) | 18 abr. – Erica Borges e Tatiane Rebelatto Zanaro (Passos Maia) | 24 abr. – Roseli Montardin (Chapecó).
Perfil recorrente de vítimas e agressores
Levantamento do Ministério Público de Santa Catarina indica que 71% dos crimes são classificados como feminicídios íntimos, cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Entre os aspectos mais frequentes, destacam-se:
- Faixa etária das vítimas: 25 a 44 anos em 52,84% dos casos;
- Escolaridade: ensino fundamental ou médio completo em 56,1% das ocorrências;
- Local do crime: residência da vítima em 77,48% dos registros;
- Fatores de risco entre agressores: histórico de violência, abuso de álcool ou drogas e comportamento controlador prévio;
- Gatilho dominante: separação ou tentativa de término do relacionamento.
A Polícia Civil aponta índice de 99,66% de elucidação dos casos, com identificação e prisão dos autores, excetuando-se situações de suicídio após o crime.
Corredor de alta letalidade feminina
O mapeamento estadual delineia um corredor do fenômeno feminicida entre Xanxerê e São Miguel do Oeste, onde se concentram algumas das maiores taxas de mortalidade feminina do Estado. Fatores socioeconômicos e a dispersão demográfica dificultam:
- O acesso rápido a delegacias especializadas;
- A interiorização de serviços de acolhimento;
- A fiscalização de medidas protetivas em áreas rurais.
Especialistas reforçam que a capilaridade da rede de proteção é determinante para interromper o ciclo de violência antes do desfecho letal.
Imagem: Reprodução
Resposta institucional e avanço legislativo
Programas como Polícia Civil por Elas mantêm frentes de atuação que incluem grupos reflexivos para agressores, apoio financeiro a vítimas e campanhas educativas. No campo operacional, as operações Mulheres e Shamar intensificam a fiscalização de medidas protetivas e a prisão de reincidentes.
Na esfera legislativa, o Projeto de Lei 275/2026, em tramitação na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), propõe restringir visitas íntimas a condenados por feminicídio, estupro ou pedofilia após trânsito em julgado. Durante sessão de 30 de abril, parlamentares citaram a estatística de 10 mortes em apenas um mês para justificar a urgência da matéria.
Organizações de direitos humanos defendem ainda a ampliação de casas de acolhimento, a expansão da Patrulha Maria da Penha e a integração de bancos de dados para monitoramento em tempo real de agressores reincidentes.
Conclusão técnica
Os números de 2026 confirmam a persistência de um padrão de feminicídio íntimo no Oeste catarinense, marcado pelo controle do parceiro, ruptura do relacionamento e ação letal dentro do ambiente doméstico. A efetividade na identificação dos autores demonstra capacidade investigativa, mas a incidência crescente aponta para a necessidade de:
- Fortalecer mecanismos preventivos nas fases iniciais de violência doméstica;
- Interiorizar serviços especializados em municípios de menor porte;
- Concretizar o arcabouço legislativo em debate, alinhando punição e proteção.
Enquanto novas políticas públicas não são implementadas, a orientação técnica continua a priorizar a denúncia imediata por meio dos canais 181 (Polícia Civil), 190 (Polícia Militar) e 180 (Central de Atendimento à Mulher), além da Delegacia Virtual para solicitação de medidas protetivas de urgência.



