Pesquisadores confirmam que o sambaqui localizado no Balneário Garopaba do Sul, em Jaguaruna, sul de Santa Catarina, constitui o maior depósito de conchas conhecido no mundo, medindo cerca de 30 metros de altura e 300 metros de comprimento; a formação guarda vestígios de populações pré-históricas que ocuparam o litoral brasileiro entre 7 mil e 2 mil a.C., oferecendo um registro arqueológico singular sobre organização social, rituais funerários e adaptações ambientais.
Formação milenar e dimensões sem precedentes
O termo sambaqui deriva do Tupi-Guarani “tamba-ki”, que significa “monte de conchas”. Esse tipo de estrutura resulta do acúmulo sucessivo de conchas marinhas, ossos, cinzas de fogueiras e resíduos alimentares descartados por grupos costeiros. Estudos estratigráficos conduzidos em Jaguaruna indicam que os primeiros sedimentos foram depositados há aproximadamente 7 mil anos, em um período de estabilidade relativa do nível do mar. Ao longo de milênios, a superposição contínua de camadas elevou o sítio até alcançar os atuais 30 metros, volume estimado em bilhões de conchas.
Além da altura recorde, o monumento arqueológico possui largura média de 120 metros e perímetro que ultrapassa 800 metros. Tais proporções superam registros clássicos de sambaquis brasileiros — como os de Saquarema (RJ) e Guarapari (ES) — e colocam Jaguaruna como referência global em pesquisas sobre sociedades conchíferas.
Vestígios culturais e avanços da pesquisa arqueológica
Escavações supervisionadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) revelaram sepultamentos múltiplos com ossadas humanas em posição flexionada, associados a artefatos litopercussivos e pigmentos minerais. As datações por Carbono-14 demonstram que parte das camadas corresponde ao Holoceno Médio, intervalo em que ocorreram mudanças climáticas que influenciaram a dieta e o padrão de mobilidade dos chamados povos sambaquieiros.
Entre os achados destacam-se anzóis produzidos em osso de peixe, lâminas de sílex e pingentes confeccionados em dentes de cetáceos, indicativos de redes de troca com outros grupos costeiros. Segundo a arqueóloga Maria Dulce Urban, vinculada à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), “o sítio apresenta uma sequência cultural contínua raramente preservada em contextos tropicais, permitindo reconstruir até 9 fases de ocupação sucessiva”.
Acesso público, turismo e desafios de preservação
A visita ao sítio é gratuita. O trajeto principal parte da rodovia SC-100, seguido por 3 quilômetros de estrada de chão até um pequeno estacionamento sinalizado. A subida ao cume, realizada por trilha arenosa de 200 metros, dura menos de dez minutos e oferece visão panorâmica que abrange o Farol de Santa Marta em dias de boa visibilidade. Segundo o secretário municipal de Esporte e Turismo, Dante Gentil, o fluxo anual supera 15 mil visitantes, entre estudantes, pesquisadores e ecoturistas.
Apesar do interesse crescente, a infraestrutura permanece deliberadamente minimalista para minimizar impactos: não há serviços de alimentação nem instalações sanitárias no perímetro imediato. Placas bilíngues apresentam orientações sobre pisoteio controlado e recolhimento de resíduos. A gestão municipal planeja instalar passarelas elevadas de madeira — solução empregada em sítios semelhantes no Peru e no México —, aguardando parecer técnico do Iphan para não comprometer as camadas superficiais.
Imagem: Leandro Neto
Perspectivas de conservação e pesquisa futura
Atualmente, mais de 50 sítios arqueológicos estão catalogados em Jaguaruna, dos quais 24 correspondem a sambaquis de médio e grande porte. Iniciativas de mapeamento por LiDAR já identificaram micro-elevações potencialmente associadas a etapas iniciais de ocupação. A Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) negocia a implantação de um laboratório de análise zooarqueológica na região, objetivando avaliar alterações na fauna marinha ao longo de sete milênios.
A consolidação de roteiros integrados — que englobam o sítio de Garopaba do Sul e o Museu Arqueológico de Laguna — pretende ampliar o tempo médio de permanência do visitante, fortalecendo a economia local sem prejudicar a integridade do patrimônio.
Conclusão Técnica
O sambaqui de Garopaba do Sul mantém-se como testemunho material da interação entre povos pré-históricos e o ambiente costeiro do Atlântico Sul. Com 30 metros de altura e registros que remontam a 7 mil a.C., o sítio oferece base empírica para estudos sobre adaptação humana às variações do nível do mar, padrões alimentares e complexidade social inicial. As ações de preservação, combinadas a projetos de pesquisa multidisciplinar e turismo de baixo impacto, tendem a consolidar Jaguaruna como polo internacional de arqueologia litorânea nos próximos anos.




