O Banco do Brasil reportou desaceleração expressiva: o lucro trimestral recuou mais de 50%, enquanto o guidance anual foi reduzido em R$ 2 bilhões; mesmo negociada a múltiplos historicamente baixos, a ação BBAS3 acumula queda próxima de 20% em dois anos, alimentando o debate se o preço descontado representa risco ou oportunidade.
Resultados do 1º trimestre de 2026 evidenciam queda de rentabilidade
A divulgação do balanço de Banco do Brasil referente ao 1T26 trouxe números que sinalizam perda de tração operacional. O lucro líquido recorrente atingiu R$ 4,1 bilhões, ante R$ 8,3 bilhões no mesmo período de 2025, perfazendo retração superior a 50%. A margem financeira bruta recuou em meio a maior despesa com provisões para devedores duvidosos, que avançaram para R$ 9,7 bilhões, refletindo o crescimento da inadimplência em segmentos de varejo.
Adicionalmente, o banco revisou o guidance de resultado para o exercício, reduzindo a estimativa de lucro em R$ 2 bilhões. O reajuste na projeção acompanha a piora do cenário macro, caracterizado por inflação persistente, elevação de juros longos e aumento da taxa de desemprego, fatores que pressionam a capacidade de pagamento de famílias e empresas.
Valuation comparativo: BBAS3 negocia barata, mas desempenho de mercado diverge
Mesmo após o resultado adverso, BBAS3 permanece com múltiplo preço/lucro (P/L) próximo de 3,5 vezes, contra cerca de 6 vezes apresentado por Itaú Unibanco no encerramento de 1T26. Todavia, o comportamento dos preços ilustra que valor nominalmente baixo não garante retorno: enquanto as ações do Itaú acumularam valorização de aproximadamente +60% desde maio de 2024, BBAS3 sofreu depreciação de quase -20% no mesmo intervalo.
O prêmio de risco embutido nas cotações do Banco do Brasil está associado à maior exposição a crédito consignado, agronegócio e políticas de governo, segmentos mais suscetíveis a mudanças regulatórias e flutuações macroeconômicas. O beta histórico mais elevado da ação corrobora a percepção de volatilidade adicional em comparação aos pares privados.
Fatores de risco concentram-se em inadimplência e cenário macroeconômico
O Índice de Inadimplência 90+ do Banco do Brasil subiu para 4,5%, acima dos 3,7% reportados um ano antes. O crescimento foi mais pronunciado em linhas de crédito ao consumo, especialmente no cartão e no financiamento de veículos. A combinação de avanço da inadimplência, maior necessidade de provisões e pressão sobre a margem financeira reduz a capacidade de distribuição de dividendos, antes vista como diferencial competitivo da instituição.
Imagem: Internet
Além disso, a revisão de expectativas para a Selic — agora projetada estável em 10,75% ao longo de 2026 — eleva o custo de captação e comprime spreads. A escalada de tensões geopolíticas, sobretudo no Oriente Médio, agrava a aversão ao risco global, impactando a precificação dos ativos bancários brasileiros, considerados cíclicos.
Perspectivas de curto e médio prazo para BBAS3
Para reverter o quadro, a administração indica reforço na política de recuperação de crédito, revisão de critérios de concessão e foco em negócios de menor risco relativo, como crédito agrícola subsidiado. O mercado monitora três pontos-chave:
- Evolução do índice de cobertura: hoje em 235%; níveis inferiores a 200% podem sinalizar necessidade de reforço adicional de provisões.
- Rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE): expectativa de estabilização em torno de 11%–12%, patamar distante dos 19% registrados por bancos privados líderes.
- Distribuição de proventos: a política oficial mantém mínimo de 25% do lucro líquido, mas a compressão no resultado pode reduzir o dividend yield estimado para 7%, abaixo da média histórica da própria instituição.
Conclusão Técnica
O desconto aparente em BBAS3 reflete, fundamentalmente, o aumento do risco de crédito e a menor previsibilidade de lucros, aspectos corroborados pela queda de mais de 50% no resultado trimestral e pela revisão negativa de guidance. A continuidade da estratégia de provisões robustas será determinante para a estabilização do balanço, enquanto a trajetória de inadimplência e a evolução da Selic representarão variáveis críticas para a remuneração ao acionista. No horizonte de 2026, o ativo tende a permanecer sensível a indicadores macroeconômicos e à execução interna de melhorias operacionais; investidores acompanham os próximos balanços trimestrais para reavaliar a relação risco–retorno.




