A proposta em discussão no Congresso para substituir a escala 6×1 pela jornada 5×2, com período de transição de até dez anos, tende a encarecer imediatamente as cotas condominiais residenciais e comerciais em até 15%, segundo cálculo da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC), divulgado em 21 de maio de 2026.
Pressão direta sobre a folha de pagamento dos condomínios
O custo com funcionários representa de 55% a 60% do orçamento mensal dos empreendimentos que mantêm equipes próprias, conforme detalhou Omar Anauate, presidente da AABIC. A extinção da escala 6×1 obrigaria esses condomínios a contratar novos trabalhadores para cumprir a carga horária reduzida e preservar o nível de atendimento — sobretudo em portarias e postos de manutenção ativos 24 horas por dia.
Em estruturas que operam sem margem de lucro, qualquer aumento salarial, encargos ou benefícios é transferido de forma automática aos condôminos. Anauate explica que, diferentemente de empresas privadas, o condomínio não dispõe de reservas destinadas à amortização de choques de custos; o rateio é a única fonte de custeio contínuo.
Nos cálculos da associação, foram considerados salários de porteiros, zeladores, auxiliares de limpeza, encargos trabalhistas, férias, 13º salário e recolhimento para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A simples necessidade de dobrar ou triplicar escalas de portaria noturna já eleva sobremaneira a folha, pressionando o caixa condominial.
Reajuste estimado e impacto para moradores e empresas
Com base em valores médios da capital paulista, onde a plataforma Loft apurou R$ 1.100 como cota típica, o índice de 15% projetado implicaria uma despesa em torno de R$ 1.265 ao mês. Essa quantia corresponde atualmente a 78% do salário mínimo de R$ 1.621, porcentual considerado expressivo para orçamentos familiares de renda média.
No segmento corporativo, a elevação afeta tanto locatários de lajes quanto pequenos empreendedores em edifícios mistos. Para empresas de comércio ou serviços, o condomínio faz parte do custo fixo de ocupação; um acréscimo de dois dígitos potencializa repasses de preço ao consumidor final ou cortes em outras linhas de despesa.
Entidades setoriais projetam efeitos em cadeia. O Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP) alerta que a medida pode encarecer também a produção de novos empreendimentos e o valor do metro quadrado ofertado no mercado primário, uma vez que construtoras tendem a repassar estimativas de custos futuros à fase de incorporação.
Tecnologia e terceirização como respostas operacionais
Diante do cenário de escalas mais curtas, administradoras identificam duas tendências. A primeira é a ampliação de tecnologia, como porteiros digitais, leitores biométricos e câmeras com reconhecimento facial, já presentes em parte dos edifícios. A segunda é a terceirização ampla de serviços de portaria, manutenção e limpeza.
Imagem: Internet
Para condomínios que optam por equipes terceirizadas, há alívio na gestão direta de pessoal; porém, as prestadoras igualmente precisarão reorganizar jornadas, contratar reforços e renegociar convenções coletivas. Conforme a AABIC, os contratos de prestação tendem a ser reajustados e o custo final voltará a recair nos rateios mensais.
Empresas de segurança eletrônica, por sua vez, veem oportunidade de expansão acelerada, pois a substituição parcial da mão de obra presencial por sistemas remotos preserva a continuidade dos serviços sem impacto proporcional em salários e benefícios.
Tramitação legislativa e horizonte de implementação
A mudança na legislação trabalhista ainda está sujeita a debate entre governo federal e parlamentares. O texto inicial previa adoção imediata da jornada 5×2; contudo, emendas sugerem período de transição de até dez anos, permitindo adequações graduais de escalas, contratações e investimentos em automação.
Enquanto as discussões prosseguem, associações como AABIC, Secovi-SP e federações de comércio apresentam memorial de impactos econômicos ao Ministério do Trabalho e a comissões temáticas da Câmara dos Deputados. O objetivo é demonstrar que, além do efeito sobre o Produto Interno Bruto (PIB), a proposta influencia a inflação de itens sensíveis do orçamento familiar, como moradia.
Em paralelo, administradoras recomendam que síndicos iniciem análise de cenários orçamentários, simulem contingências de contratação e estudem contratos de prestação de serviços. Embora o projeto de lei possa sofrer alterações, a preparação antecipada reduz o risco de inadimplência condominial caso a regra entre em vigor sem diluição de custos.
Conclusão técnica
A projeção de até 15% de aumento na taxa condominial decorre de um efeito aritmético direto: menor jornada exige maior quadro de funcionários para manter serviços ininterruptos. O impacto será sentido primeiro em condomínios com equipe própria, mas contratos terceirizados também deverão absorver reajustes. No curto prazo, síndicos e administradoras tendem a reforçar controles orçamentários, avaliar soluções tecnológicas e renegociar estruturas de custos. No médio prazo, o desfecho legislativo e a definição de um cronograma de transição determinarão a velocidade da recomposição tarifária e o grau de adoção de automação no segmento condominial.




