Falsa biomédica é denunciada por nova vítima após suspeita de uso de PMMA em preenchimento labial em Santa Catarina

A Polícia Civil de Santa Catarina apura a denúncia da empresária Paula Kotzias, 33 anos, que atribui à falsa biomédica Suelem Damasceno da Silva complicações severas decorrentes de um preenchimento labial realizado em julho de 2023, em São José; exames preliminares indicam a possível utilização de PMMA — substância sintética não absorvível — em vez de ácido hialurônico, o que reabre o caso que já envolve 39 mulheres lesadas e indiciamentos por quatro crimes.

Escalada de sintomas e tentativas de reversão do material aplicado

A intervenção estética ocorreu poucos dias antes de as primeiras denúncias contra Suelem Damasceno da Silva virem a público. Segundo o relato, os lábios da empresária permaneceram aparentemente estáveis por cerca de seis meses. A partir de dezembro de 2023, porém, formaram-se nódulos palpáveis no lábio inferior, seguidos de episódios recorrentes de inflamação, edema e extravasamento de secreção purulenta.

Entre janeiro e abril de 2024, a vítima submeteu-se a múltiplas sessões de injeção de hialuronidase, enzima indicada para dissolver ácido hialurônico. A ausência de resposta terapêutica levantou a hipótese de que o produto implantado não era biocompatível. Em laudo técnico, a cirurgiã plástica responsável alertou para “risco concreto de presença de PMMA”, composto acrílico permanente cuja remoção pode exigir abordagem cirúrgica invasiva. As intercorrências culminaram em procedimentos de drenagem sob anestesia regional devido ao acúmulo de pus, comprometendo a mobilidade e a estética labial da paciente.

Avanço das investigações e enquadramentos criminais

Em dezembro de 2023, após cinco meses de diligências, a Delegacia de Proteção ao Consumidor concluiu o inquérito que indiciou a suspeita por:

  • Exercício ilegal da profissão (contravenção penal);
  • Crime contra as relações de consumo;
  • Estelionato13 ocorrências formalizadas;
  • Lesão corporal1 grave e 5 leves.

Apesar de o número total de afetadas chegar a 39, apenas 14 vítimas registraram boletim de ocorrência e 13 decidiram prosseguir com a representação criminal. A pena somada pode alcançar até cinco anos de reclusão. Suelem Damasceno da Silva responde em liberdade e não se manifestou oficialmente até o fechamento desta reportagem.

Riscos do PMMA e exigências de habilitação na biomedicina estética

O polimetilmetacrilato (PMMA) é classificado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como preenchedor permanente. Entre as complicações descritas estão necrose tecidual, embolia pulmonar e perda visual por oclusão vascular. Por ser inabsorvível, o material pode migrar, formar granulomas e demandar extração cirúrgica complexa.

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Imagem: pessoal

No Brasil, biomédicos só podem executar procedimentos minimamente invasivos após obtenção de título específico registrado no Conselho Regional de Biomedicina (CRBM). A ausência de registro configura exercício ilegal e expõe o paciente a riscos sanitários significativos. O CRBM-5, que abrange Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mantém consulta pública para verificação de habilitação. A entidade reforça que qualquer inconsistência nos dados profissionais deve ser tratada como sinal de alerta.

Orientações de verificação e prevenção para consumidores

Antes de submeter-se a preenchimentos, especialistas recomendam:

  1. Consultar o número de inscrição do profissional no site do CRBM ou do Conselho Federal de Medicina, conforme a área de atuação.
  2. Exigir rótulo e nota fiscal do produto a ser aplicado, verificando lote, data de validade e autorização da Anvisa.
  3. Solicitar termo de consentimento informado contendo possíveis efeitos adversos e conduta de reversão.
  4. Acompanhar sinais tardios como nódulos, alterações de cor e dor persistente, procurando avaliação médica imediata caso ocorram.

Conclusão Técnica

A empresária aguarda análise laboratorial para confirmação da substância implantada e estuda intervenção cirúrgica caso se confirme a presença de PMMA. No âmbito policial, o inquérito permanece em andamento para inclusão de novos elementos probatórios. O Ministério Público deverá decidir sobre a oferta de denúncia formal nas próximas etapas processuais, enquanto Suelem Damasceno da Silva segue respondendo em liberdade. O caso ressalta a importância da checagem de habilitação profissional e do rastreamento do insumo utilizado, especialmente em procedimentos que envolvam materiais de preenchimento de longa permanência.