BTG Pactual rompe década de cautela, eleva Ambev a compra e projeta ação em ‘modo premium’

Após 13 anos de recomendação neutra, o BTG Pactual alterou o status das ações da Ambev (ABEV3) para compra, fixou novo preço-alvo em R$ 20 e indicou potencial de valorização de 22 %, citando retomada de poder de precificação, fortalecimento do portfólio e expansão do retorno sobre capital investido.

Preço, portfólio e participação: os pilares da mudança de visão

O relatório assinado pelos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttila aponta que a capacidade de impor preços voltou a funcionar como principal motor de criação de valor na Ambev. Segundo o banco, a companhia vem recuperando participação de receita no mercado brasileiro de cerveja após sucessivos reajustes repassados ao consumidor, estratégia que se consolidou ao longo de quatro trimestres consecutivos.

Enquanto a concorrente Heineken demonstra sinais de maturidade no ciclo de expansão iniciado há 15 anos, a Ambev reforçou presença em todos os segmentos — core, core plus, premium de entrada e premium. Esse movimento reduziu a dependência de rótulos tradicionais e reposicionou marcas como Brahma Duplo Malte e Stella Artois, fundamentais para elevar o tíquete médio.

Dados do banco indicam que a companhia detém cerca de 50 % do mercado premium, ante 70 % no segmento core. A expectativa revisada assume avanço anual real de 1,4 p.p. nos preços do portfólio de cerveja no Brasil, ritmo considerado suficiente para sustentar ganho de rentabilidade sem necessidade de grandes investimentos adicionais.

ROIC em trajetória ascendente sustenta múltiplo ‘premium’

O retorno sobre capital investido (ROIC) da Ambev subiu para 31 % em 2025 e, de acordo com as projeções do BTG, deve atingir 37 % até o fim da década. Na metodologia do banco, o intervalo entre 35 % e 40 % diferencia uma cervejaria com múltiplo comum de uma companhia posicionada em patamar premium.

A elevação do indicador decorre, sobretudo, do melhor giro de ativos. O capital investido permanece praticamente estável até 2030, enquanto a receita cresce puxada por mix e reajustes em termos reais. Para o BTG, essa correlação transforma a “tese de preços” e a “tese de ROIC” em uma única narrativa: monetizar a base instalada com foco em rentabilidade.

Sob essa ótica, qualquer incremento de preço tem impacto direto na geração de caixa e exige desembolso de capital mínimo, característica valorizada por investidores que buscam previsibilidade em margens e fluxo de caixa livre.

Reação imediata do mercado e comparação com o Ibovespa

No pregão que sucedeu a publicação do relatório, os papéis da Ambev registraram alta de 0,55 %, cotados a R$ 16,49, enquanto o Ibovespa recuava 0,83 %, aos 176.341,29 pontos. Embora modesto, o desempenho positivo contrastou com a tendência negativa do índice de referência, refletindo a leitura de que o novo preço-alvo oferece margem adicional de valorização.

O BTG ressalta que, historicamente, fases de expansão do ROIC da Ambev convergem para performance superior das ações em relação ao mercado amplo. Entre 2010 e 2013, período de forte alavancagem de preços, o múltiplo preço/lucro da companhia ultrapassou o de pares globais, situação que o banco acredita poder se repetir à medida que o indicador se aproxime da faixa premium.

Outro ponto observado pelos analistas é a mudança de postura competitiva: após anos seguindo ajustes comandados pela Heineken, a Ambev voltou a liderar as revisões de preços em 2025-2026. A inversão do ciclo obrigou a rival holandesa a adotar posicionamento reativo, fator interpretado como sinal de força renovada da fabricante brasileira.

Cenário de investimentos e desafios monitorados

Apesar do otimismo, o banco elenca riscos que podem alterar a tese: desaceleração do consumo interno, pressão de custos de commodities e movimentos agressivos de preço por parte de concorrentes regionais. Além disso, a manutenção de margens depende do equilíbrio entre volume vendido e capacidade de repasse inflacionário — questão sensível em ambientes de renda real estagnada.

O relatório também menciona a necessidade de vigilância sobre eventuais mudanças regulatórias no setor de bebidas, como ajustes tributários ou restrições de marketing. Tais variáveis podem afetar diretamente o volume de vendas e o posicionamento de marcas no segmento premium.

Mesmo diante desses pontos de atenção, o BTG considera que o conjunto de fatores estruturais — portfólio diversificado, capacidade de precificação e eficiência operacional — coloca a Ambev em trajetória de retorno consistente sobre o capital empregado, justificando a inclusão do papel na carteira de recomendações de compra.

Conclusão técnica

Com o upgrade para compra e preço-alvo de R$ 20, o BTG Pactual sinaliza que a Ambev ingressa em fase de captura de valor baseada em três vetores: liderança na formação de preços, fortalecimento do portfólio premium e expansão do ROIC sem incremento relevante de capital. Caso as projeções de ganho real anual de 1,4 p.p. em preços se concretizem e o ROIC alcance a faixa de 37 % até 2030, o papel tende a negociar com múltiplo superior ao de rivais globais. A efetivação dessa trajetória dependerá da manutenção do poder de barganha da companhia e do controle sobre custos, elementos que permanecem sob acompanhamento do mercado.