Dados atualizados da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e de modelos globais indicam que o El Niño já ultrapassou o limiar de temperatura de +0,5 °C na região Niño 3.4 pela segunda semana consecutiva, configurando o estágio inicial do fenômeno com potencial de intensificação nas próximas semanas.
Anomalias de temperatura confirmam início do aquecimento no Pacífico
Medições consolidadas nas semanas encerradas em 13 e 20 de maio de 2026 apontaram anomalias de +0,5 °C na região Niño 3.4, área-chave para a caracterização do evento. O valor, embora moderado, mantém-se acima do patamar que define tecnicamente a fase quente do Pacífico equatorial.
A NOAA observa que a atual trajetória se assemelha aos estágios preliminares de episódios relevantes registrados em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Nessas ocasiões, o aquecimento sustentado resultou em impactos globais sobre regimes de chuva e temperatura.
Ao mesmo tempo, o portal especializado Meteored corrobora o cenário, destacando que a permanência das anomalias por pelo menos cinco trimestres móveis tende a consolidar oficialmente o El Niño segundo critérios climatológicos internacionais.
Oscilação Madden-Julian deve amplificar o fenômeno
Modelos atmosféricos GEFS e ECMWF sinalizam a atuação da Oscilação Madden-Julian (MJO) nas fases 7 e 8, que migram do Índico para o Pacífico Oeste em ciclos de 30 a 60 dias. Esse deslocamento estimula:
- Enfraquecimento dos ventos alísios que sopram de leste para oeste na faixa equatorial;
- Formação de westerly wind bursts, rajadas de oeste que empurram águas superficiais quentes em direção ao centro e ao leste do oceano;
- Ascensão de águas subsuperficiais quentes, intensificando o gradiente térmico positivo.
O boletim de 25 de maio da NOAA destaca que a MJO interage atualmente com uma onda de Kelvin no Pacífico equatorial, combinação que historicamente acelera a transferência de calor para a superfície marítima.
Possíveis repercussões climáticas para o Brasil e o mundo
Episódios de El Niño costumam alterar de forma significativa a distribuição de chuvas e as temperaturas em várias latitudes. No cenário sudamericano, a comunidade científica monitora:
Sul do Brasil: tendência de chuvas acima da média durante a primavera e o verão, elevando o risco de enchentes, cheias de rios e deslizamentos de terra, conforme histórico observado nos anos de 1983 e 2015.
Imagem: Curiosity
Norte e Nordeste: possibilidade de redução nos acumulados pluviométricos, com implicações para reservatórios e agricultura de sequeiro.
América do Norte e Ásia: probabilidade de invernos mais amenos em latitudes médias e aumento de tempestades na costa pacífica da América Central.
Essas projeções são continuamente atualizadas pelos centros internacionais de monitoramento climático, que utilizam redes de bóias oceânicas, satélites e reanálises atmosféricas para refinar os cenários de curto e médio prazo.
Monitoramento técnico e próximos passos
A NOAA manterá a divulgação semanal do El Niño/Southern Oscillation Diagnostic Discussion, documento que consolida medições de temperatura subsuperficial, índices de pressão ao nível do mar e variações nos ventos de superfície. A manutenção de anomalias iguais ou superiores a +0,5 °C por três meses consecutivos deverá levar a agência a declarar oficialmente a fase quente do ciclo ENSO.
Paralelamente, órgãos nacionais, como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ajustam suas previsões sazonais, orientando defesas civis estaduais sobre possíveis cenários de excesso ou escassez de precipitação.
Conclusão Técnica
A continuidade do aquecimento na região Niño 3.4, somada ao fortalecimento da Oscilação Madden-Julian, estabelece um pano de fundo favorável à intensificação do El Niño nas próximas semanas. Caso o limiar de +0,5 °C seja mantido durante o trimestre móvel em curso, agências meteorológicas devem confirmar oficialmente o fenômeno, ajustando projeções climáticas globais. Até lá, o monitoramento em tempo real de temperatura oceânica, ventos alísios e atividade convectiva permanecerá crucial para antecipar impactos em setores como agricultura, recursos hídricos e gestão de desastres.



