El Niño ‘Godzilla’ volta ao radar e acende alerta para a agricultura brasileira

Modelos climáticos globais projetam a formação de um possível Super El Niño — popularmente chamado de “El Niño Godzilla” — entre o fim de 2026 e o início de 2027, cenário que pode desencadear chuvas extremas no Sul e estiagens prolongadas no Norte e Nordeste, com repercussões diretas sobre a produção de soja, milho, café e sobre o abastecimento de energia no país.

O que caracteriza o ‘El Niño Godzilla’

O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam anomalias positivas de temperatura por vários meses consecutivos. Quando o desvio térmico ultrapassa 2 °C em relação à média histórica, o fenômeno passa a ser classificado como Super El Niño. O episódio registrado em 2015-2016, batizado de “Godzilla”, provocou secas severas no Sudeste Asiático, enchentes na América do Sul e um salto de 0,9 °C na temperatura média global daquele biênio, segundo o Centro de Previsão Climática dos EUA (NOAA).

Atualmente, projeções atualizadas em maio de 2026 pela NOAA atribuem probabilidade superior a 65 % de aquecimento acima de 1,5 °C no Pacífico central até o próximo verão do Hemisfério Sul. A incerteza envolve a intensidade final do evento, mas a trajetória de aquecimento observada desde março já excede a linha de base vista em anos considerados fortes.

Distribuição geográfica dos impactos climáticos

Análises do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam padrões historicamente recorrentes durante fases de El Niño:

Região Sul – Tendência de aumento de precipitação entre +20 % e +40 %, elevação da frequência de eventos extremos e maior risco de cheias nos vales dos rios Uruguai, Taquari e Iguaçu. Em 2015, por exemplo, o índice de chuvas em Porto Alegre superou a média em 37 % durante o trimestre de primavera.

Regiões Norte e Nordeste – Redução plurianual de chuvas entre -15 % e -35 %, recuo dos níveis dos rios Amazonas e São Francisco e intensificação de focos de queimadas na Amazônia e no Cerrado. O déficit hídrico compromete reservatórios estratégicos para geração hidrelétrica e irrigação.

Regiões Sudeste e Centro-Oeste – Aumento da frequência de veranicos em pleno período chuvoso, picos de temperatura que podem ultrapassar 40 °C em áreas do interior paulista e goiano, além de impactos diretos na safra de grãos de segunda época.

Efeitos previstos sobre a produção agropecuária

O agronegócio responde por cerca de 24 % do PIB brasileiro e por mais de 50 % das exportações totais, segundo o MAPA. Um Super El Niño pode provocar:

Soja e milho – No Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a combinação de calor e irregularidade de chuvas tende a reduzir o potencial produtivo entre 5 % e 12 %. Já no Sul, o excesso de umidade aumenta a incidência de doenças fúngicas, elevando custos com defensivos.

Café arábica – Produtores do sul de Minas Gerais e do Espírito Santo historicamente registram perdas de até 15 % em grãos por floradas irregulares associadas a veranicos.

Pecuária de corte – A disponibilidade de pasto no Norte e no Centro-Oeste pode cair significativamente, encarecendo a arroba bovina e comprimindo margens de frigoríficos.

Monitoramento, logística e mitigação

Grandes cooperativas e tradings agrícolas já ajustam contratos de hedge climático na Bolsa de Chicago (CME) para mitigar volatilidade de preços. Governos estaduais investem em sistemas de alerta hidrometeorológico: o Rio Grande do Sul ampliou em 30 % a rede de pluviômetros automáticos após as enchentes de 2023-2024. No Nordeste, projetos de interligação de adutoras, como o Eixo Norte da Transposição do São Francisco, ganham prioridade para garantir abastecimento urbano.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) recomenda escalonamento de plantio, adoção de cultivares de ciclo precoce e manejo de solo para retenção de umidade. O mapeamento remoto por satélite, combinado a modelos de precipitação probabilística, já orienta seguros rurais parametrizados, cujas indenizações são disparadas quando o índice pluviométrico fica abaixo de patamares predefinidos.

Conclusão Técnica

As atuais projeções convergem para a manutenção de condições favoráveis ao aquecimento do Pacífico até o verão de 2027, mas a amplitude final do evento permanece incerta. A NOAA e o Cemaden atualizarão boletins trimestrais que deverão refinar as estimativas de intensidade. Enquanto isso, o setor agrícola, governos estaduais e agentes de infraestrutura devem priorizar planos de contingência, seguros climáticos e obras de adaptação hídrica para reduzir perdas potenciais. O acompanhamento contínuo dos modelos oceânico-atmosféricos será decisivo para ajustar medidas de curto e médio prazos, preservando produção, renda e segurança alimentar no país.