Raízen apresentou aos detentores de suas dívidas um plano preliminar de recuperação extrajudicial que converte até 45 % do passivo em ações e alonga o saldo remanescente, criando três alternativas de adesão e envolvendo R$ 65,4 bilhões em renegociação.
Pressão financeira e composição do passivo
A companhia de energia e distribuição de combustíveis carrega hoje R$ 75,3 bilhões em dívidas totais, das quais R$ 65,4 bilhões entraram no plano divulgado na noite de 27 de maio. Esse montante engloba praticamente todos os instrumentos relevantes existentes no balanço:
- 36,1 % em bonds emitidos no exterior;
- 15,7 % em EPPs (pré-pagamentos de exportação);
- 9,7 % em CRAs do agronegócio;
- 8,8 % em debêntures locais;
- 5,6 % em crédito rural direcionado;
- 4,1 % em termos de empréstimos bilaterais;
- 2,6 % em derivativos a liquidar.
No primeiro trimestre de 2026, o pagamento de encargos consumiu R$ 2,9 bilhões e colaborou para uma queima de caixa de R$ 3,3 bilhões. Com esse nível de custo financeiro, a administração concluiu que seria preciso redesenhar por completo a estrutura de capital, trazendo capital novo, alongando prazos e reduzindo o peso dos juros no curto prazo.
Opção A: conversão parcial em ações e nova dívida segmentada
A proposta principal — batizada informalmente de Opção A — combina conversão de 45 % da dívida em ações e refinanciamento dos 55 % restantes. Os detalhes são:
- Preço de conversão: R$ 0,25 por ação, equivalente ao valor do aporte dos controladores.
- Instrumento recebido: units compostas por ações ordinárias e preferenciais; credores internacionais poderão optar por ADRs.
- Nova dívida: emitida por duas empresas resultantes da reorganização societária:
- Raízen Combustíveis assume 37,4 % do saldo, pagando CDI + 2,75 % ou 8,5 % a.a. em dólar e vencendo em 2032/2034.
- Raízen Energia fica com 17,6 %, remunerado a CDI + 1,25 % ou 7 % a.a. em dólar, com prazos até 2033/2035.
- Carência de juros: nos três primeiros anos, a companhia poderá capitalizar os cupons com acréscimo de 2 p.p., preservando fluxo de caixa imediato.
- Garantias: penhor de ações de subsidiárias na divisão de energia e ativos operacionais — como planta de lubrificantes e tanques — na divisão de combustíveis.
- Pré-pagamento facultativo: permitido a qualquer momento sem prêmio; vendas de ativos (exceto na Argentina) ou geração de caixa excedente acionam amortizações obrigatórias.
Com a conversão, os credores tornam-se acionistas e assumem parte do risco de mercado do papel RAIZ4, enquanto os atuais sócios veem diluição relevante. Para apoiar a transação, os controladores anunciaram injeção de R$ 4 bilhões — R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões da família Ometto — ao mesmo preço de R$ 0,25 por ação.
Opção B: desconto agressivo com pagamento único em 2047
A Opção B endereça credores dispostos a encurtar a discussão aceitando deságio de 80 %. Nesse formato, o credor recebe um título único a ser quitado em 2047, sem pagamentos intermediários. A oferta reduz drasticamente o valor presente da obrigação para a companhia, mas transfere aos investidores a totalidade do risco de liquidez de longo prazo.
Imagem: Internet
Opção C: saída em dinheiro para créditos reduzidos
Voltada a pequenos credores, a Opção C estabelece liquidação imediata em espécie, limitada ao menor valor entre 75 % do crédito ou R$ 9.750. O desembolso global está restrito a R$ 150 milhões. Caso a procura ultrapasse o teto, o rateio seguirá ordem crescente de valor nominal, priorizando os menores saldos.
Condicionantes e cronograma de aprovação
O plano ainda requer anuência de mais de 50 % dos credores elegíveis e pode sofrer ajustes durante as negociações finais. Entre as condições precedentes estão:
- acordo com a Receita Federal para regularização de passivos tributários;
- novo acordo de acionistas entre Shell e Cosan envolvendo reembolso de litígios anteriores;
- implementação da carve-out que separa os negócios de combustíveis e energia.
Conclusão Técnica
Ao combinar capitalização, alongamento e descontos seletivos, a Raízen tenta equilibrar liquidez imediata com preservação de valor de longo prazo, distribuindo o risco entre acionistas, novos sócios credores e controladores. A aprovação dependerá da percepção de equidade entre classes de investidores e da viabilidade operacional da separação societária. Caso homologada, a companhia reduzirá substancialmente a pressão de curto prazo sobre o caixa, mas passará a lidar com maior diluição e governança mais complexa, elementos que deverão ser monitorados nos próximos trimestres.




