Queda do petróleo apaga R$ 98,1 bilhões do valor de mercado da Petrobras em maio

Petrobras viu seu valor de mercado encolher em R$ 98,1 bilhões ao longo de maio, mês marcado pela correção de 17,4% no Brent e 16,8% no WTI, movimento atribuído ao avanço das negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã que reduziu o prêmio de risco geopolítico sobre o petróleo.

Da euforia aos recordes: a trajetória até abril

A partir de 28 de fevereiro, quando o conflito iraniano escalou no Oriente Médio, a Petrobras (PETR3; PETR4) tornou-se protagonista entre as empresas listadas na B3. A disparada do petróleo elevou o fluxo de capital para papéis ligados à commodity, fazendo a estatal atingir 12 marcas históricas de valuation. O pico ocorreu em 13 de abril, com a companhia precificada em R$ 680,1 bilhões, após sucessivos fechamentos positivos impulsionados tanto por hedge funds quanto por investidores de varejo que buscavam proteção contra incertezas externas.

Esse movimento refletiu dois vetores principais: i) a percepção de risco de oferta global, derivada da possibilidade de interrupções logísticas no Estreito de Ormuz, e ii) a reavaliação de premissas de longo prazo para o balanço da estatal, que, naquele momento, combinava preços elevados do barril, desalavancagem e geração robusta de caixa.

Alteração do quadro geopolítico pressiona as cotações

Maio apresentou inflexão brusca: sinalizações da administração norte-americana sobre um eventual acordo nuclear preliminar com o Irã e notícias de canais diplomáticos multilaterais reduziram o estresse no cenário de oferta. Em resposta, o contrato Brent para agosto encerrou o mês em US$ 91,12, recuo de US$ 19 — a maior queda nominal desde março de 2020. Já o WTI para julho terminou a US$ 87,36, recuo de US$ 17, marcando o pior desempenho mensal desde novembro de 2021.

Com a normalização parcial do prêmio de risco, algoritmos de negociação sistemática aceleraram movimentos de venda, intensificando a volatilidade intradiária e provocando stop losses em posições alavancadas. Consequentemente, a Petrobras perdeu quase R$ 100 bilhões em market cap, encerrando maio avaliada em R$ 576,5 bilhões, menor patamar desde 6 de março.

Desempenho das ações na B3 e comparativo setorial

No período, as ações ordinárias (PETR3) recuaram 14,62%, enquanto as preferenciais (PETR4) caíram 14,43%, classificando-se respectivamente como a 11ª e 12ª piores performances do Ibovespa em maio. Por comparação, outros players de óleo e gás listados no índice — embora menos representativos em peso — registraram quedas inferiores a dois dígitos, indicando sensibilidade adicional dos ativos da estatal a reavaliações regulatórias e à discussão sobre distribuição extraordinária de dividendos.

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Analistas chamam atenção também para a correlação de curto prazo entre o ADR da Petrobras negociado na Nyse e o ETF XOP, que reúne produtoras de petróleo independentes nos Estados Unidos. Em maio, a correlação de 30 dias caiu de 0,77 para 0,58, evidenciando a influência predominante de fatores domésticos e estatais na precificação dos papéis brasileiros.

Indícios para os próximos ciclos de preço

Para o mercado, dois eixos permanecem centrais: i) a evolução efetiva do diálogo EUA-Irã e possíveis alívios nas sanções, que podem adicionar até 1,5 milhão de barris/dia ao equilíbrio global nos próximos trimestres; e ii) a sinalização da Opep+ sobre cortes adicionais de produção, reunião agendada para final de junho. Qualquer mudança na orientação do cartel pode recalibrar as curvas futuras do Brent, repercutindo diretamente no fluxo de caixa previsto da Petrobras.

No âmbito doméstico, o plano de investimentos 2024-2028 e a política de preços da gasolina continuam no radar de gestores. Ajustes recentes nos combustíveis reforçaram a percepção de que a companhia seguirá metodologia de paridade flexível, ponto que modera riscos de interferência governamental mas não elimina volatilidade associada ao câmbio e às cotações internacionais.

Conclusão técnica

A Petrobras concluiu maio com perda expressiva de valor após a maior correção mensal do petróleo em quatro anos. A reversão decorreu da redução do prêmio geopolítico diante do avanço diplomático entre Estados Unidos e Irã, afetando diretamente a precificação dos ativos da estatal. A continuidade desse movimento dependerá da materialização de um acordo nuclear, da estratégia de oferta da Opep+ e da manutenção da disciplina de preços da empresa. Até que haja definições concretas sobre esses pontos, a tendência é de que os papéis permaneçam sensíveis a variações abruptas nas curvas de petróleo e a eventos políticos que impactem expectativas de fluxo de caixa.