Braskem comunicou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que ainda não formalizou qualquer decisão sobre reestruturar sua dívida corporativa, mesmo após reportagem apontar risco de inadimplência de US$ 150 milhões em juros de títulos internacionais a partir de julho; as discussões, iniciadas em setembro de 2025, seguem apoiadas por assessores financeiros e jurídicos externos.
Contexto da possível inadimplência e reação do mercado
A manifestação oficial responde a questionamento da CVM, provocado pela publicação do jornal Valor Econômico que levantou a hipótese de calote nos cupons de bonds emitidos no exterior. Segundo a reportagem, a companhia consideraria uma recuperação extrajudicial — e, em cenário extremo, uma recuperação judicial — caso não chegasse a consenso com os detentores dos papéis.
Os títulos em foco têm vencimentos escalonados a partir de julho de 2026, com montante total de cerca de US$ 5,9 bilhões, conforme demonstrativos do primeiro trimestre. O mercado precificou o risco: os yields secundários desses papéis avançaram mais de 300 pontos-base na semana que antecedeu o esclarecimento, sinalizando percepção de crédito mais frágil.
No comunicado, a petroquímica admitiu analisar “mecanismos de proteção contra credores”, expressão que, no jargão financeiro, abrange desde extensão de prazos até utilização de períodos de carência ou cláusulas de “consent solicitation”. Entretanto, reforçou que “nenhuma alternativa foi definida”.
Estrutura de capital e negociações em andamento
A empresa carrega dívida bruta consolidada acima de R$ 38 bilhões, segundo balanço encerrado em março, com índice de alavancagem (Dívida Líquida / EBITDA) de 4,2x. Mais da metade desses passivos é denominada em dólar, o que eleva a exposição ao câmbio em cenário de real depreciado.
Desde setembro de 2025, equipes do banco de investimento Moelis & Co. e do escritório jurídico Kirkland & Ellis assessoram as tratativas com credores institucionais, entre eles BlackRock e Fidelity. As conversas abordam:
- Reperfilamento de cupons sem vencimento de principal nos próximos 12 meses;
- Eventual troca de garantias envolvendo participações industriais e recebíveis;
- Waivers para covenants de alavancagem até 2027.
Fontes próximas às negociações relatam que, apesar do avanço técnico, ainda não há quórum mínimo (75% dos detentores) para uma proposta vinculante. Assim, a companhia mantém liberdade para prosseguir com os pagamentos normalmente enquanto avalia cenários.
Imagem: Internet
Pressões operacionais e necessidade de capital de giro
Paralelamente às discussões financeiras, a Braskem enfrenta custos mais altos de nafta, principal matéria-prima na petroquímica básica. O preço médio do insumo subiu 18% desde janeiro, comprimindo a margem EBITDA do segmento de polietilenos e polipropilenos.
A empresa também projeta desembolsos líquidos superiores a R$ 1,2 bilhão em capital de giro no segundo semestre, diante de maior prazo de recebimento na exportação e necessidade de recomposição de estoques estratégicos. Esses fatores somam-se a vencimentos importantes:
- US$ 350 milhões em notas seniores com cupom de 5,875% (vencimento em outubro de 2026);
- R$ 2,4 bilhões em debêntures locais indexadas ao CDI +1,5% (vencimento em dezembro de 2026);
- US$ 750 milhões em bonds atrelados a metas ESG com cupom escalonado (first call em 2027).
Indicadores operacionais do 1T26 já refletem o estresse: geração de caixa livre negativa de R$ 820 milhões e redução de 11% no volume vendido. A administração reiterou a estratégia de priorizar liquidez e manter o perfil de vencimentos equilibrado, mas reconheceu a “necessidade de ações estruturais” para restaurar a competitividade financeira.
Conclusão Técnica
O posicionamento enviado à CVM confirma que Braskem continua avaliando um amplo espectro de medidas para equacionar sua alavancagem e mitigar o risco de inadimplência em moeda forte. Até o momento, nenhuma resolução formal foi aprovada pelo conselho, e os pagamentos permanecem em dia. As negociações com grandes detentores de bonds prosseguem em caráter confidencial, podendo resultar em:
- Extensão de prazos e redução temporária de cupons;
- Troca de títulos por instrumentos híbridos ou garantias adicionais;
- Busca de capital novo via emissões privadas ou venda de ativos não estratégicos.
Nos próximos meses, a evolução dessas tratativas, a dinâmica do câmbio e o comportamento dos preços de derivados petroquímicos serão os principais vetores para definir o grau de urgência de uma reestruturação formal. Até lá, o mercado seguirá monitorando o fluxo de caixa operacional e a capacidade da empresa de honrar cerca de US$ 150 milhões em juros que vencem a partir de julho.




