Troca de CFO do Nubank amplia pressão sobre as ações, mas analistas veem fundamentos intactos

A substituição de Guilherme Lago por Rob Livingston na diretoria financeira do Nubank, divulgada em 14 de junho de 2026, intensificou a queda dos papéis da companhia, refletindo receios do mercado quanto ao avanço da carteira de crédito, ao aumento dos provisionamentos no 1º trimestre e à expansão nos Estados Unidos; segundo a Empiricus Research, apesar da reação negativa, os fundamentos operacionais permanecem inalterados.

Repercussão imediata e desempenho das ações

Logo após o anúncio, as ações ROXO34 ampliaram as perdas registradas desde o início do semestre. Nas sessões subsequentes, o papel acumulou queda adicional próxima de 4%, elevando o recuo anual para cerca de 18%. Investidores atribuíram o movimento a três fatores concomitantes:

  • Troca de CFO, interpretada como sinal de possíveis ajustes estratégicos.
  • Crescimento acelerado da carteira de crédito, que elevou a inadimplência bruta para 6,2% no 1º trimestre.
  • Provisionamento acima do consenso, totalizando US$ 532 milhões, valor 9% superior às estimativas de analistas.

Para Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, a aversão reflete mais uma leitura de curto prazo do que mudanças estruturais na tese de investimento. Ele lembra que o primeiro trimestre historicamente incorpora despesas sazonais — como tributos e seguros — que pressionam a inadimplência.

Contexto financeiro: crescimento, inadimplência e rentabilidade

O Nubank encerrou março de 2026 com US$ 42 bilhões em carteira de crédito, avanço de 30% em 12 meses. A expansão sustenta a margem financeira, mas exige reforço nas provisões. Mesmo com o aumento do risco, o banco manteve retorno sobre patrimônio (ROE) em torno de 30%, patamar acima da média de instituições comparáveis na América Latina.

Segundo dados divulgados no balanço, a inadimplência acima de 90 dias subiu de 5,7% para 6,2% entre dezembro e março, mas continua compatível com o apetite de crescimento. A relação entre provisões e carteira (coverage ratio) permaneceu em 220%, indicando, de acordo com a Empiricus, cobertura conservadora frente aos riscos.

No mesmo período, a operação norte-americana — em fase piloto — respondeu por 2% da receita total. A meta declarada pela administração é atingir participação de 10% em cinco anos, o que exige liderança com experiência local, ponto que sustenta a escolha de Rob Livingston.

Perfil do novo CFO e implicações estratégicas

Rob Livingston atuou como CFO da Visa North America de 2021 a 2025 e, antes disso, passou quase duas décadas na Capital One, onde liderou áreas de crédito ao consumo e risco. Seu histórico inclui:

  • Implementação de modelos de risk-based pricing que reduziram perdas em 15%.
  • Coordenação de emissões de dívida que somaram US$ 8 bilhões em mercados internacionais.
  • Integração de plataformas de pagamentos digitais em oito países.

A Empiricus avalia que a nomeação reforça a estratégia de internacionalização do Nubank, principalmente nos Estados Unidos, mercado no qual a instituição vê potencial para replicar o modelo de contas sem tarifas e alta penetração em público de renda média. Livingston deve concentrar-se em três frentes:

  1. Gestão de risco de crédito adaptada ao ambiente regulatório norte-americano.
  2. Captação de funding em moeda forte para sustentar a expansão da carteira.
  3. Integração de sistemas de pagamento visando ganhos de escala e redução de custos unitários.

Cenário prospectivo e sensibilidade do mercado

A continuidade do crescimento dependerá da calibragem entre expansão da base de clientes — hoje em 96 milhões — e controle da qualidade do crédito. O guidance oficial para 2026 mantém projeção de alta de 25 % a 30 % na receita, com índice de eficiência inferior a 35%. Pressões sobre custos de funding, especialmente em dólares, e variações nas taxas de inadimplência são os principais vetores de volatilidade mapeados pelos analistas.

Apesar dos riscos, a Empiricus sustenta recomendação de manutenção, argumentando que o preço atual — equivalente a 2,8 vezes o valor patrimonial — já incorpora cenário conservador. A casa ressalta que mudanças de executivos de alto escalão costumam gerar curto período de incerteza, mas tendem a se dissipar quando a comunicação estratégica é mantida e os indicadores operacionais confirmam tendência.

Conclusão Técnica

A reação negativa à troca de CFO decorre da combinação entre ajustes sazonais no crédito, provisões elevadas e incertezas sobre a expansão internacional. Entretanto, os números do Nubank — crescimento de receita, ROE acima de 30% e cobertura de inadimplência superior a 200% — indicam que os fundamentos permanecem robustos. A chegada de Rob Livingston, profissional com histórico consolidado em instituições norte-americanas, alinha-se à estratégia de ampliação nos Estados Unidos. Mantidos os atuais níveis de rentabilidade e controle de risco, a expectativa é de normalização da percepção de mercado nos próximos trimestres, com foco nos resultados do 2º semestre para confirmar a trajetória de expansão planejada.