Profissionais sem formação clínica podem comandar equipes hospitalares com eficiência, desde que dominem competências como comunicação, gestão de pessoas e pensamento estratégico, afirmou Edgar Gil Rizzatti, presidente da Unidade de Negócios do Grupo Fleury, em evento do LinkedIn realizado em 17 de junho de 2026.
Formação técnica deixa de ser pré-requisito absoluto
Durante o painel, Rizzatti contestou a percepção de que somente médicos, enfermeiros ou outros profissionais clínicos estão aptos a liderar instituições de saúde. Segundo ele, o conhecimento técnico permanece relevante para a operação diária, porém fica em segundo plano quando o cargo exige direcionamento estratégico e mobilização de times multidisciplinares.
O executivo citou organizações hospitalares que já recrutam gestores oriundos de Administração, Economia ou Engenharia. Esses líderes, mesmo sem experiência na linha de frente assistencial, obtêm resultados satisfatórios ao:
- Estabelecer metas claras para indicadores de qualidade e segurança do paciente;
- Orquestrar processos entre enfermagem, corpo clínico e áreas de apoio;
- Facilitar a adoção de tecnologias diagnósticas e terapêuticas.
Para sustentar sua posição, o diretor lembrou que hospitais de alta complexidade reúnem até 50 especialidades distintas. “Ninguém detém conhecimento profundo de todas elas; logo, a capacidade de articular especialistas torna-se mais valiosa que a expert tise individual”, resumiu.
Transição da prática clínica para a gestão impõe ruptura cultural
Entre os profissionais que já atuam na linha de frente, a passagem para cargos de chefia representa um desafio. O primeiro impacto, segundo Rizzatti, é abrir mão da execução direta. Em números, um médico que migra para coordenação pode reduzir em até 80 % o tempo dedicado a procedimentos técnicos, redirecionando a agenda para:
- Reuniões de alinhamento intersetorial;
- Acompanhamento de metas assistenciais;
- Desenvolvimento e avaliação de performance da equipe.
A resistência, alerta o executivo, surge quando o novo gestor exige que subordinados sigam o próprio método “cirúrgico”. A eficácia é maior ao permitir abordagens diversas, desde que alinhadas a protocolos institucionais.
Ele acrescenta que líderes de origem administrativa tendem a aceitar com mais naturalidade múltiplas formas de execução, pois não carregam o mesmo apego à prática clínica específica.
Imagem: Internet
Competências críticas: engajamento, comunicação e adaptabilidade
A fala do dirigente do Grupo Fleury elencou habilidades determinantes para quem busca comandar equipes de saúde:
- Engajamento do time: alinhar expectativas, negociar prazos e reconhecer desempenhos.
- Comunicação: traduzir metas organizacionais em tarefas compreensíveis e argumentar decisões baseadas em evidências.
- Gestão de pessoas: identificar talentos, promover desenvolvimento contínuo e administrar conflitos.
- Pensamento estratégico: antecipar tendências de mercado, definir prioridades de investimento e acompanhar indicadores financeiros.
- Adaptabilidade: ajustar processos diante de novos regulamentos sanitários ou avanços tecnológicos.
O executivo destacou que comunicação permanece a lacuna mais comum entre especialistas de saúde que assumem cargos de liderança. “Ter uma ideia inovadora ou ser excelente cirurgião não basta se o gestor não convence a equipe a trilhar o mesmo caminho”, enfatizou.
Formação superior ignora liderança; mercado recorre a mentorias
Rizzatti criticou a grade curricular das faculdades de saúde, que concentram carga horária em anatomia, fisiologia e técnicas de atendimento, mas oferecem pouca ou nenhuma disciplina sobre governança hospitalar. Esse vazio acadêmico obriga profissionais interessados em gestão a buscar capacitação paralela, como:
- Cursos on-line de curta duração em gestão de serviços de saúde;
- Programas de mentoria conduzidos por executivos do setor;
- Especializações lato sensu em administração hospitalar.
Dados internos do Grupo Fleury apontam que 65 % dos gerentes formaram-se originalmente em áreas da saúde, mas mais da metade complementou a educação com MBAs ou certificações em liderança nos últimos cinco anos.
Conclusão Técnica
A declaração de Edgar Gil Rizzatti reforça a tendência de valorização de habilidades comportamentais na gestão hospitalar. Organizações que ampliarem o recrutamento para além de perfis clínicos podem acelerar a profissionalização dos processos e melhorar indicadores assistenciais. Nos próximos trimestres, a expectativa é de crescimento da oferta de programas de desenvolvimento gerencial específicos para saúde, suprindo o vácuo deixado pela formação universitária tradicional.




