O PicPay (ticker: PICS) acumula baixa superior a 40% desde a estreia na Nasdaq, em janeiro de 2026, mas a XP Investimentos iniciou cobertura recomendando compra e projetando preço-alvo de US$ 18 ao fim de 2026 — um upside estimado em cerca de 64% frente à cotação atual.
Base de 44 milhões de usuários sustenta a tese de reprecificação
A XP argumenta que o mercado concentra atenção excessiva no aumento da inadimplência e negligencia o principal trunfo competitivo do PicPay: sua carteira digital com mais de 44 milhões de usuários ativos. Segundo o relatório, o alto nível de engajamento desses usuários gera um fluxo contínuo de dados transacionais, permitindo calibrar modelos de crédito de forma mais precisa e ampliar ofertas de produtos financeiros com menores custos de aquisição.
Para a corretora, cada interação — de pagamentos via Pix a recargas de serviços — enriquece a análise de risco, conferindo vantagem estrutural frente a bancos tradicionais e outros bancos digitais. Esse ecossistema, avalia a XP, opera como motor de distribuição de crédito e de monetização, abrindo caminho para margens potencialmente superiores às observadas no setor.
Crédito em expansão e inadimplência em ajuste gradual
No 1T26, o PicPay reportou lucro líquido de R$ 169 milhões, quase o dobro do registrado um ano antes. O indicador NPL 90+, porém, subiu para 8,9%, alta de 1,69 ponto percentual na comparação trimestral. O aumento acendeu alerta nos investidores quanto ao ritmo de concessão de empréstimos.
A XP classifica o cenário como típico de carteiras jovens em rápida expansão. A instituição observa que a fintech adota limites iniciais reduzidos e os amplia de forma progressiva conforme o comportamento de pagamento do cliente, além de reforçar linhas de menor risco — como o crédito consignado privado — para equilibrar retornos e qualidade dos ativos.
Projeções internas da corretora indicam avanço do saldo de crédito dos atuais R$ 24 bilhões para aproximadamente R$ 64 bilhões até 2028. A expectativa é de que a inadimplência normalize à medida que os modelos de subscrição amadureçam, mitigando parte do risco precificado hoje nas ações.
Comparação com o Nubank expõe assimetria de múltiplos
A XP posiciona o PicPay como uma versão “de beta mais alto” do Nubank. Os analistas destacam que o roxinho negocia a cerca de 15 vezes o lucro projetado para 2026, enquanto o PicPay é precificado a aproximadamente 7,4 vezes. O desconto reflete histórico mais curto de execução, maior sensibilidade ao ambiente macroeconômico — 85% da base está em faixas de renda mais baixa — e escrutínio regulatório sobre produtos de alta margem, como financiamentos via Pix.
Imagem: Internet
Na visão da corretora, caso o PicPay comprove capacidade de escalar crédito de forma lucrativa e controlar a inadimplência, parte relevante desse desconto pode ser revertida, gerando reprecificação significativa. A dinâmica deve ser mais volátil que a do Nubank: em ciclos de alta, a ação tende a subir mais; em momentos adversos, a queda pode ser acentuada.
Riscos monitorados: execução, regulação e macroeconomia
A XP reconhece que a tese de investimento apresenta elevado grau de incerteza. Os principais vetores de risco incluem:
- Execução de crédito: rápida expansão expõe o modelo a erros de subscrição, com possível impacto em provisões e rentabilidade.
- Regulação: propostas de aperto sobre tarifas ou limites para produtos baseados em Pix podem reduzir spreads e comprometer escalabilidade.
- Macroeconomia: deterioração do mercado de trabalho ou queda na renda disponível elevariam a inadimplência, especialmente na clientela de menor renda.
A corretora enfatiza acompanhamento contínuo desses pontos para validar — ou rever — a recomendação de compra.
Conclusão Técnica
O PicPay permanece pressionado em bolsa após recuo superior a 40% desde o IPO, mas a XP Investimentos enxerga desequilíbrio entre risco e retorno. A combinação de uma base de 44 milhões de usuários, potencial de crescimento do crédito para R$ 64 bilhões até 2028 e múltiplos descontados sustenta o preço-alvo de US$ 18 ao fim de 2026. A materialização desse cenário depende de controle da inadimplência, execução consistente e estabilidade regulatória. Caso esses fatores convirjam, a fintech pode capturar a valorização projetada; em sentido oposto, falhas de execução ou choques macroeconômicos podem manter o ativo sob pressão.




