Brasil mantém liderança em fusões e aquisições na América Latina e amplia distância em relação ao México

O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) registrou US$ 55,1 bilhões em 2025, respondendo por quase metade do total movimentado na América Latina e consolidando o país como principal destino de capital corporativo na região, mesmo sob juros elevados.

Volume regional cresce, mas Brasil sustenta quase 50% do capital

De acordo com relatório produzido pela Marsh em parceria com a Mergermarket, a América Latina movimentou US$ 114,3 bilhões em operações de M&A em 2025, crescimento de 16% sobre o ano anterior. O Brasil concentrou 48% desse montante, com 850 transações, frente a US$ 22,5 bilhões do México, segundo colocado no levantamento.

A distância entre os dois maiores mercados latino-americanos aumentou em valor absoluto e porcentual. Em 2024, a diferença era de cerca de US$ 27 bilhões; em 2025, chegou a US$ 32,6 bilhões. O resultado reflete a capacidade brasileira de atrair transações de grande porte, mesmo em ambiente de crédito mais caro decorrente da taxa Selic elevada.

Energia, Mineração e Utilidades dominam o fluxo de negócios

O segmento de Energia, Mineração e Utilidades (EMU) foi responsável por US$ 42,6 bilhões em 2025 na América Latina. No Brasil, a reorganização de portfólios corporativos impulsionou alienações de ativos maduros e aquisições estratégicas voltadas a geração, transmissão e fontes renováveis.

Entre os casos de maior destaque figura a compra de 60% dos ativos do campo de Peregrino pela Prio, avaliada em US$ 3,35 bilhões. A transação exemplifica a tendência de empresas brasileiras capitalizarem oportunidades para reforçar participação em projetos de produção offshore, ao mesmo tempo em que se beneficiam de sinergias operacionais.

O levantamento também indica o retorno dos fundos de private equity ao protagonismo regional. O valor alocado por essas gestoras saltou 106%, chegando a US$ 19,8 bilhões. Ativos de infraestrutura digital, como redes de fibra óptica e data centers, migraram de investidores financeiros para operadores estratégicos, sinalizando maturação de mercados antes considerados emergentes.

Contexto macroeconômico desafiador não inibe negociação

Apesar da política monetária restritiva, aplicada para conter a inflação, e da projeção de desaceleração do PIB — de 3,4% em 2024 para 1,6% em 2026 —, companhias brasileiras seguiram ativas na reciclagem de capital. Juros mais altos incentivaram a venda de ativos não-core, enquanto compradores com balanços robustos encontraram preços atraentes para consolidação setorial.

Mecanismos de proteção, como seguros de riscos transacionais, ganharam espaço nas negociações. Segundo a Marsh, tais instrumentos reduziram divergências sobre valuation e possibilitaram o fechamento de acordos de maior envergadura, compensando a menor quantidade de operações totais observada na comparação anual.

O relatório destaca, ainda, que as partes envolvidas passaram a considerar variáveis adicionais de risco, incluindo volatilidade cambial e incertezas regulatórias. A adoção de cláusulas de ajuste de preço vinculadas a métricas operacionais tornou-se prática recorrente, ampliando a previsibilidade financeira pós-aquisição.

Execução passa a ser diferencial competitivo

A consultoria avalia que o desafio não reside mais apenas em identificar ativos atrativos, mas em conduzir a transação até a conclusão. Obter aprovações antitruste, estruturar financiamento em ambiente de custo elevado e gerir expectativas de múltiplos acionistas são fatores que ampliam o tempo médio de diligência.

A participação de assessores especializados em estruturação de dívida, cobertura cambial e análise regulatória aumentou nos processos. Empresas que incorporaram planejamento de integração logo nas fases iniciais apresentaram taxas mais altas de fechamento efetivo, especialmente em setores sujeitos a complexidade operacional, como energia e telecomunicações.

Perspectivas: Brasil mantém atratividade em 2026

O relatório projeta continuidade do protagonismo brasileiro em 2026. A dimensão do mercado interno, combinada a recursos naturais abundantes e amplo portfólio de projetos de infraestrutura, sustenta o interesse de investidores globais. O país reúne condições de escalar plataformas de negócios em segmentos como renewables, logística e saneamento, elementos considerados difíceis de replicar noutras geografias latino-americanas.

Ainda que fatores como inflação persistente, câmbio volátil e tensões geopolíticas permaneçam no radar, o histórico recente de transações de grande porte confere credibilidade ao pipeline para os próximos trimestres. A expectativa do mercado é de manutenção de negócios bilionários em energia, bem como avanço de consolidações em saúde e tecnologia.

Conclusão Técnica: O Brasil encerrou 2025 ampliando a liderança regional em fusões e aquisições, apoiado por operações de maior porte e uso crescente de instrumentos de mitigação de risco. Para 2026, a combinação de mercado doméstico volumoso, ativos estratégicos e interesse renovado de private equity sugere a manutenção do fluxo de capital, desde que as empresas consigam navegar pelos desafios regulatórios e macroeconômicos presentes.