Desconto persistente nas ações do Banco do Brasil mantém Luiz Barsi cauteloso, mesmo após alta de 30% no governo Lula

Luiz Barsi, reconhecido como o “Rei dos Dividendos” no mercado brasileiro, declarou que não pretende ampliar sua posição em Banco do Brasil (BBAS3) enquanto o país estiver sob um governo de esquerda, apesar de as ações permanecerem negociadas com desconto significativo em relação ao valor patrimonial e já terem se valorizado cerca de 30% desde o início de 2023.

Pressão operacional freia recuperação dos papéis

Depois de atingir R$ 30 em fevereiro de 2025, a cotação de BBAS3 entrou em trajetória de correção. A deterioração da carteira de crédito no agronegócio, segmento historicamente relevante para a instituição, elevou a inadimplência e reduziu a confiança dos investidores. Entre março e outubro de 2025, os papéis recuaram para o patamar de R$ 19, anulando boa parte dos ganhos acumulados no ciclo de alta anterior.

Embora tenha ocorrido um repique técnico no quarto trimestre de 2025, o movimento perdeu força diante da combinação de custo de capital mais alto e revisão nas metas financeiras divulgadas pela administração. Atualmente, a ação oscila em torno de R$ 21, valor que representa aproximadamente 0,8 vez o patrimônio líquido por ação, estimado em R$ 32, de acordo com dados consolidados no balanço mais recente.

Revisão de guidance e impacto no pagamento de dividendos

No último ciclo de projeções, o banco revisou para cima a estimativa de custo de capital: a faixa originalmente situada entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões passou para R$ 65 bilhões – R$ 70 bilhões. A instituição também ajustou o payout, reduzindo-o de 45% para 30% do lucro líquido, a fim de preservar capital regulatório em cenário de maior risco de crédito.

Com base em lucro projetado de R$ 18 bilhões para 2026, a distribuição potencial de dividendos foi recalculada para algo próximo de R$ 5,4 bilhões, equivalente a R$ 0,94 por ação. O dividend yield resultante gira em torno de 4,5%, patamar inferior aos mais de 10% observados nos anos de pico de lucratividade pré-pandemia.

Segundo avaliação de Flavio Conte, analista da Levante, a combinação de margens comprimidas, maior exigência de provisões e payout menor prolonga o período de recuperação do indicador de retorno ao acionista. Esse conjunto de fatores reforça a visão cautelosa de investidores que, como Barsi, privilegiam fluxo de caixa recorrente.

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Comparativo de valuation e alternativas apontadas por Barsi

Apesar de reconhecer que BBAS3 negocia com desconto, Barsi destaca a existência de bancos listados com múltiplos ainda mais baixos. Em entrevista ao canal Primo Rico, o investidor citou casos em que o preço se encontra entre 0,10 vez e 0,20 vez o valor patrimonial. Um dos exemplos mencionados foi o Bmg (BMGB4), cuja administração, segundo ele, ganhou tração com a nomeação de João Consiglio para a vice-presidência.

Outro ativo recentemente incorporado à carteira de Barsi é o Banrisul (BRSR6). Após a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, o papel despencou de R$ 19 para cerca de R$ 9. O investidor avaliou que o histórico de pagamento de dividendos trimestrais e a existência de caixa robusto configuravam oportunidade de entrada a preços deprimidos. Atualmente, sua participação no banco estatal gaúcho corresponde a 2,2% do capital total.

Dentro desse mesmo racional de selecionar instituições com grande margem de segurança, Barsi argumenta que o Banco do Brasil, embora sólido do ponto de vista patrimonial, não apresenta prêmio de mercado suficiente para compensar o risco político percebido durante administrações alinhadas à esquerda do espectro ideológico.

Conclusão técnica

A cotação de BBAS3 permanece abaixo do valor contábil e a relação preço/valor patrimonial de 0,8 vez sugere potencial de convergência ao longo do tempo. Entretanto, o guidance revisado para custos, a adoção de payout reduzido e a maior inadimplência no agronegócio sustentam um cenário de retorno moderado no curto prazo. Investidores com foco em dividendos observam alternativas com múltiplos ainda mais descontados, como BMGB4 e BRSR6, citadas por Luiz Barsi. A continuidade do governo atual, classificado pelo investidor como fator de incerteza, tende a manter o Banco do Brasil fora de seu radar de novas compras até que sinais macroeconômicos ou políticos alterem a percepção de risco.