A febre da proteína: números, riscos e estratégias por trás de um mercado que já vale R$ 2 bilhões no Brasil

Produtos enriquecidos com proteína movimentam mais de R$ 2 bilhões anuais no Brasil e alimentam projeções globais de expansão de 63% até 2033, mesmo sem alteração nos níveis recomendados de consumo para a população em geral.

Escalada comercial: do whey ao rótulo “high protein” em tudo

Levantamento da Euromonitor indica que o segmento de alimentos com proteína adicionada ultrapassou R$ 2 bilhões ao ano no mercado brasileiro, enquanto dados internacionais apontam faturamento superior a R$ 250 bilhões em 2024. O instituto Grand View Research projeta incremento de 63% na próxima década, impulsionado por lançamentos como água proteica e sorvetes funcionais.

Apenas em 2025, as vendas de whey protein avançaram 124%, segundo a plataforma de varejo Scanntech. Itens correlatos apresentaram ritmo semelhante: creatina (+89%), cereais proteicos (+21%) e iogurtes fortificados (+16%). Paralelamente, a Cargill identificou que 61% dos consumidores brasileiros declararam ter aumentado a ingestão diária do nutriente em 2024.

A busca por desempenho físico permanece o principal gatilho de compra. Pesquisa Atlas/Intel revela que 54,5% dos entrevistados associam o consumo desses produtos ao ganho de massa muscular, enquanto 44,4% visam elevar a ingestão de forma “prática”. Redes sociais influenciam diretamente 37,9% dos consumidores.

Referências médicas: necessidade real x consumo percebido

A recomendação oficial para adultos saudáveis sem treino intenso reside em 0,8 g de proteína por quilo de peso corporal/dia, segundo diretrizes internacionais citadas pela nutricionista Glaucia Figueiredo Braggion. Esse índice é facilmente alcançado por refeições tradicionais – um prato de arroz, feijão e dois bifes, por exemplo, soma mais de 40 g.

Para atletas e idosos, o intervalo pode subir para 1,2 g a 2 g/kg/dia, mas a especialista ressalta que ingerir acima desse teto “eleva o risco sem entregar benefício adicional”. Entre as complicações listadas estão sobrecarga renal, formação de cálculos, deposição de placas ateroscleróticas e crises de gota, conforme estudos da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA e do HCor.

A psicóloga comportamental Vanessa Tomasini destaca que a elevação do status da proteína a “superalimento” desloca a atenção de padrões alimentares completos. “Quando a conversa migra de arroz e feijão para macronutrientes isolados, abre-se espaço para que produtos ultraprocessados ganhem aparência saudável”, afirma.

Fatores recentes, como o uso disseminado de análogos de GLP-1 para emagrecimento – que podem reduzir massa magra – incrementam a procura indiscriminada por suplementos, segundo Braggion. No entanto, sem prescrição direcionada ou estímulo de exercício, o excedente proteico é convertido em energia e posteriormente armazenado como gordura.

Estrategistas de mercado e comportamento do consumidor

O ciclo de tendências nutricionais não é inédito. A década de 1990 foi marcada pelos rótulos light e diet; na sequência veio a onda do integral e, agora, o selo “high protein”. Cada fase reposiciona marcas e reformula linhas inteiras, reforçando margens superiores nas gôndolas.

A agregação de valor ocorre via “claim” de saudabilidade. Uma caixa de cookies proteicos, por exemplo, pode custar até 60% a mais do que a versão tradicional, ainda que a adição de proteína seja marginal em relação à ingestão diária recomendada. Segundo Tomasini, isso alimenta a percepção de que desempenho corporal está associado a compras constantes: passos monitorados, sono rastreado e, agora, ingestão proteica meticulosamente calculada.

A produção interna acompanha a explosão da demanda. A Conab projeta recorde de 32,3 milhões de toneladas de proteínas animais em 2026, enquanto o consumo de ovos saltou para 288 unidades por habitante em 2025, com previsão de 306 unidades em 2026, conforme a ABPA.

Embora a expansão atenda camadas de renda média e alta, especialistas alertam para um paradoxo: setores de menor poder aquisitivo recorrem a ultraprocessados baratos, perpetuando carências nutricionais. “Cria-se demanda onde não havia, reforçando desigualdades alimentares”, observa Tomasini.

Conclusão Técnica

O avanço do mercado de proteína adicionada evidencia a convergência de três vetores: marketing agressivo, mudança de comportamento alimentar e pressões estéticas amplificadas por redes sociais. Apesar do faturamento bilionário e do ritmo de lançamentos, diretrizes clínicas permanecem estáveis, limitando ingestões a 0,8 g–2 g/kg/dia conforme perfil individual. A tendência deve seguir em expansão até 2033, mas profissionais de saúde reforçam a necessidade de personalização e priorização de fontes in natura para mitigar riscos de sobrecarga orgânica e desperdício financeiro.