Um ex-proprietário de videolocadora preserva em Criciúma um arquivo particular de mais de 10 mil filmes, séries e minisséries, constituindo hoje um dos maiores acervos independentes ainda intactos no Brasil e reavivando a importância cultural das locações físicas num período que antecedeu o streaming.
Origem do acervo e trajetória das locadoras no país
A popularização do videocassete, a partir do início da década de 1980, transformou a locação de fitas em fenômeno de massa. De acordo com dados da Associação Brasileira de Videoclubes, o número de estabelecimentos ultrapassou 20 mil unidades em 1995, ano considerado o auge do setor. Foi nesse cenário que o então empresário, hoje colecionador, inaugurou sua loja no sul catarinense. A operação prosperou até 2010, quando a convergência digital deu início ao encerramento gradual dos pontos físicos. Antes de baixar definitivamente as portas, ele optou por não vender o estoque remanescente. O objetivo declarado: proteger um recorte de mais de três décadas de produção audiovisual que, nas palavras do ex-empresário, “ajudou a alfabetizar cinematograficamente uma geração inteira”.
Composição do catálogo: números, estado de conservação e raridades
O levantamento mais recente, realizado em março de 2024, contabiliza 10.247 unidades distribuídas entre formatos VHS, DVD e Blu-ray. O setor de VHS concentra 6.180 fitas, muitas ainda lacradas, enquanto 3.900 DVDs compõem a parte mais acessada do estoque; os 167 discos Blu-ray completam o inventário. Segundo o colecionador, 95 % das mídias passam por revisão anual para remoção de fungos e substituição de caixas danificadas. Entre as raridades destacam-se as edições nacionais de “Central do Brasil” (1998) em VHS e a primeira prensagem brasileira de “O Poderoso Chefão – Parte II” em DVD, ambas listadas em catálogos internacionais de colecionadores. Há ainda box sets de séries como “Arquivo X” e “Família Soprano”, esgotados no varejo nacional desde 2012.
Impacto cultural e transição tecnológica
As videolocadoras funcionaram como polos de socialização. Pesquisas da Fundação Getulio Vargas indicam que, em 2001, 74 % dos domicílios com videocassete frequentavam locadoras ao menos uma vez por mês. Esse comportamento moldou hábitos de consumo de filmes, impulsionou a dublagem em português e fomentou cineclubes independentes. A partir de 2007, a chegada de plataformas de distribuição digital e a expansão da banda larga provocaram uma queda de 80 % no faturamento médio das locadoras, culminando no fechamento da maior rede nacional, a Blockbuster Brasil, em 2013. A coleção de Criciúma, portanto, representa não apenas um repositório físico, mas também um contraponto histórico à desmaterialização do entretenimento doméstico.
Imagem: Internet
Iniciativas de divulgação e preservação
A coleção, guardada em um espaço climatizado de 60 m², recebe visitas agendadas de estudantes e pesquisadores de cinema. O proprietário planeja catalogar todo o acervo em uma plataforma on-line de livre consulta até 2025, projeto que conta com apoio técnico de voluntários ligados ao curso de Arquivologia da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Há também tratativas com a Cinemateca Brasileira para possível doação de cópias raras, atendendo a normas de preservação de patrimônio audiovisual. Segundo o responsável, o custo anual para manter temperatura e umidade controladas gira em torno de R$ 18 mil, valor arcado integralmente com recursos próprios e eventuais doações de admiradores.
Conclusão técnica
O acervo de 10 mil títulos preservado em Criciúma consolida-se como registro tangível de um modelo de distribuição que moldou o hábito de assistir filmes no Brasil entre 1980 e 2010. Enquanto serviços de streaming impõem rotatividade de catálogos e dependência de licenças, a coleção física oferece estabilidade de acesso e garantia de preservação integral das obras. Os próximos passos incluem a digitalização descritiva do material, parcerias institucionais para custódia de peças únicas e abertura periódica ao público acadêmico. Assim, o antigo estoque de uma locadora local converte-se em patrimônio cultural de alcance nacional, servindo de fonte primária para estudos sobre consumo midiático, história das mídias físicas e políticas de preservação audiovisual.



